O
DEBATE
Matéria especial do Portal MilkPoint
O
debate dividiu-se em duas partes. Na primeira, Gomes, Jank e Galan
foram entrevistados por Gitânio Fortes, repórter e
editor das seções de Genética e Mundo do Leite,
da revista DBO Rural; José Carlos Cafundó, editor
do Suplemento Agrícola de O Estado de S. Paulo; Irineu Andrade
Monteiro, produtor de leite, presidente do Sindicato Rural de Patrocínio
Paulista e diretor da Faesp (Federação de Agricultura
do Estado de São Paulo); Antonio José Xavier, técnico
em laticínios e diretor da AEX Consultoria; Almir José
Meireles, economista, diretor-presidente da ABLV (Associação
Brasileira de Longa Vida) e diretor da BrainStock; André
Mesquita, produtor de leite, economista, diretor da Serlac; Daniel
Figueiredo Fellipe, vice-presidente da Central Leite Nilza e presidente
da Câmara Setorial de Leite e Derivados - SAA/SP; Tarcísio
Duque, da CCL/SP; e José Hamilton Ribeiro, jornalista do
Globo Rural.
A
moderação foi feita por Marcelo Pereira de Carvalho,
coordenador do site MilkPoint. Antes
de serem questionados pelos entrevistadores, eles traçaram
um cenário da produção de leite no Brasil,
apontando os sucessos e as dificuldades, bem como apresentando dados
do setor em termos de sistemas e custo de produção,
produtividade e potencial do País para exportar lácteos.
Visão
dos entrevistados
Para
Sebastião Teixeira Gomes, a produção não
é homogênea e a heterogeneidade da produção
leva a respostas diferentes sobre como ganhar dinheiro no leite.
A lucratividade do leite depende de fatores dentro e fora da fazenda,
de forma que resolvendo alguns fatores apenas, não se resolve
tudo. Fora da fazenda, há efeito das importações,
das exportações, da informalidade. Dentro da fazenda,
a produtividade e a escala de produção exercem influência
importante. Sempre há o questionamento da lucratividade da
atividade. Na opinião de Gomes, é difícil ter
margens tão altas como do leite - ele aponta margens de 20
a 30% da receita considerando renda bruta menos custo variável.
O problema é que a escala de produção é
muito baixa, o que gera um lucro absoluto reduzido. Supondo um produtor
que receba 50 centavos por litro e tenha 20% de margem bruta, são
10 centavos de margem. Porém, se este produtor produzir 100
litros diários, lucra apenas R$ 10/dia ou R$ 300 mensais.
Outro ponto abordado por Gomes é que a análise de
curto e longo prazo é importante. No curto prazo, o que interessa
é pagar o custo operacional, mas no longo prazo, todos os
custos precisam ser cobertos.
Valter
Galan iniciou sua participação dizendo que a DPA,
joint-venture da Nestlé com a Fonterra, acredita que Brasil
pode produzir a custos competitivos para o mercado mundial. Galan
acha também que a produção de leite passa por
transformações e deu o exemplo da cadeia do algodão:
há alguns anos, a produção de algodão
era caracterizada por pequenas propriedades, em regiões tradicionais
como a região de Aguaí, Leme, Pirassununga, em São
Paulo. Hoje, o módulo de produção aumentou
muito e a produção se deslocou para o centro-oeste
do país. Galan acha que o leite pode convergir para sistemas
de produção que possibilitem custo mais baixo e maior
competitividade.
Roberto
Jank Jr. começou sua exposição de forma polêmica.
Primeiro, manifestou-se contra o título do debate, que considerou
simplista: "se existisse fórmula para ganhar dinheiro
com o leite e não estamos usando, estamos passando atestado
de incompetência"! Jank disse que não discutiria,
no debate, o tema inclusão social de produtores. Segundo
ele, não se discute o que acontecerá com o pequeno
produtor de carne, de cana, de soja. No leite, esta discussão
é sempre recorrente e dificulta uma análise mais objetiva
da cadeia do leite no país. Para Jank, para discutir competitividade
de sistemas de produção de leite é fundamental
mudar a abordagem. Inclusão social é tema de outro
fórum. "Toda vez que se fala em fomentar a pecuária
de leite, vemos que de fato teremos uma exclusão enorme de
produtores, processo que aconteceu em diversos países",
disse Jank, comentando que a Argentina tem 15 mil produtores, enquanto,
no Brasil, são 800 mil. "Não tenho dúvida
de que será enorme a saída de produtores, e que os
que ficarem terão mais qualidade, maior produtividade, conseguirão
exportar, com profissionalismo", declarou.
Jank
também lembrou que, durante uma década, os produtores
de leite foram chamados de incompetentes por parte da academia.
Também, parte da academia disse que o leite importado não
causava dano à produção nacional. Jank questionou
estas duas observações - primeiro, a importação
de leite subsidiado nos anos 90 foi extremamente danosa - o Brasil
foi o "pinico" do mundo em determinado momento. Segundo,
o setor nunca foi incompetente. O problema era o câmbio irreal,
que tornava o setor pouco competitivo e sujeito às importações.
Dizia-se, na época, que o país precisaria produzir
aos preços internacionais, de US$ 0,22/litro. Ele desafiou,
sugerindo que o problema era o valor relativo da moeda:"Quem
recebe hoje US$ 0,22/litro?"
Jank
mencionou a missão que lideranças fizeram à
Austrália e Nova Zelândia, no início deste ano.
O Brasil foi apontado como uma das maiores potências para
a produção primária do leite, uma prova definitiva
de que o setor não é incompetente.
Jank
abordou também o fato de nos voltarmos para sistemas de custo
menor, a pasto, com menos suplementação. "Passamos
a considerar o Brasil o país do pasto", disse. Para
ele, o Brasil é o país do subproduto alimentício
- polpa cítrica, caroço de algodão, subprodutos
da soja e do milho, o que torna a suplementação altamente
vantajosa. "O produtor de leite da Nova Zelândia e da
Austrália morre de vontade de suplementar, mas não
dispõe de grãos e subprodutos na quantidade e no preço
que temos por aqui", disse. Por outro lado, possuem, assim
como a Argentina, pasto de alta qualidade e chuvas regulares. Nós
temos carrapato, pasto tropical e barro no período das águas,
tornando a comparação equivocada. Disse também
que muitos criticam os subsídios dos produtores norte-americanos,
que de fato existem. Porém, alertou para as diferenças
que existem entre grandes produtores do oeste dos Estados Unidos,
que têm custo de US$ 0,18/kg de leite e são muito eficientes,
e pequenos produtores do leste americano, que têm custo muito
mais alto e recebem mais subsídios.
"O
Brasil é o único país do mundo com custo de
produção de US$ 0,15/litro em sistema confinado",
resumiu.
Duque
estreou o debate, com pergunta dirigida a Sebastião Teixeira
Gomes, questionando se ele acredita que o leite é um bom
negócio e quais as razões. Para o professor, antes
de responder a essa questão, é preciso analisar a
maneira de agrupamento dos produtores - mão-de-obra familiar
ou contratada -: "É um bom negócio se tem mão-de-obra
contratada e grandes volumes. Se for familiar, pode ser tranqüilamente
um bom negócio com volume de 200 a 300 litros. Com essa quantidade,
o que sobra equivale ao salário que a mulher e o filho teriam
na atividade". Na opinião de Gomes, um dos problemas
sérios do Brasil é o pequeno volume de produção
que predomina entre a maior parte dos produtores. "Tem muitos
produtores com 100 litros de leite que têm dois empregados
ganhando mais que o patrão", destacou, reafirmando que
considera a atividade um bom negócio.
Galan
foi o alvo da pergunta de Xavier. "São Paulo continuará
a produzir? Como?", indagou. Ao responder, Galan afirmou que
o Estado sofreu com reajustes e, adicionalmente, porque o leite
pasteurizado perdeu mercado para o leite UHT. "O pasteurizado
permitia remuneração mais alta ao produtor, além
de concentrar a produção perto do mercado consumidor.
Agora, o produtor paulista sobre concorrência de bacias leiteiras
distantes. Mas há exceções - Rio Preto e Araçatuba,
por exemplo, estão bem. Em outras, porém, é
preciso uma reavaliação do sistema de produção,
principalmente quanto a índices produtivos. Elas têm
potencial como as outras. A vantagem de São Paulo é
estar ao lado do mercado consumidor", rebateu.
Na
questão de Cafundó, dirigida a Jank, o jornalista
perguntou se Jank acha que, no Brasil, com um governo mais voltado
para o social e democrático, o setor tem mais condições
de se desenvolver do que anteriormente. A resposta foi afirmativa,
mas Jank utilizou a maior parte de sua resposta abordando a competitividade
do leite em São Paulo, pegando um gancho na pergunta feita
a Galan. "Com relação ao leite, o maior custo
de São Paulo é o de oportunidade, em relação
à cana e à laranja. A questão passa por competitividade
e vantagens comparativas. Para o produtor eficiente, com uma produção
de 20 a 25 mil litros/ha/ano, com margem de lucro de um centavo
de dólar por litro - aproximadamente R$ 750 -, o rendimento
equivale ao do arrendamento da cana - em torno de R$ 700/ha -. Isso
é competitivo. Em São Paulo, há mais possibilidades
para subprodutos da indústria alimentícia, algo recente.
Em 1990, o Brasil já era o maior produtor mundial de laranja
e ninguém sabia o que era polpa cítrica. Hoje, de
longe, este é o ponto de energia mais barato para alimentar
nossas vacas", acrescentou.
A
segunda questão destinada a Gomes foi feita por Meireles:
"Há dez anos, em uma palestra, o senhor falou sobre
como o produtor de leite aloca seus recursos. Como ele decide sobre
prioridades e avalia o desempenho em relação a ativos?
Como ganhar dinheiro sem dispor de um sistema estruturado de informação
para subsidiar suas decisões?". O professor respondeu
com outra pergunta: "Quem é que está aumentando
a produção?". E aproveitou para dar a resposta:
"No máximo 20% a 30% dos produtores. Entre eles, a freqüência
dos que fazem anotações é expressiva. No total,
concordo com você, temos muitas deficiências, mas eles
têm avançado muito em termos de administração
e administração de custos".
Galan
foi questionado por Fellipe: "Você disse que a DPA é
otimista em relação ao futuro da produção
de leite no Brasil. Você acha que predominarão grandes
produtores ou a produção familiar? Qual seria a saída
para dar sustentação aos produtores de menor escala?".
A resposta de Galan indicou sua preocupação com o
pequeno produtor: "Países que se desenvolveram, se tornaram
exportadores sem subsídio, concentraram-se em um número
menor de produtores. No Brasil, isso vem acontecendo, mas há
como minimizar através do uso de tanques coletivos, que viabilizam
a granelização do pequeno produtor. É necessário,
porém, olhar para a qualidade do leite. A pequena produção
exige cuidado, tem de preocupar-se com produtividade no longo prazo
e com qualidade. A experiência diz que é possível
obter leite de alta qualidade em tanques comunitários, viabilizando
esta opção.
Na
questão dirigida a Jank, Mesquita abordou a heterogeneidade
na produção de leite brasileira: "Para ganhar,
qual o modelo de custos e receitas, e qual o tamanho do produtor?".
Para Jank, não se deve reinventar a roda. "Na Nova Zelândia,
produz-se um milhão de litros por produtor ao ano; no Brasil,
são 38 litros diários por produtor e ainda tem o clandestino",
lançou, afirmando que é preciso ter escala de produção,
copiar de outros países. Com relação a preços
e custos, ele disse que é "tradição no
Brasil, com dólar no câmbio correto, pagar entre 13
e 16 centavos de dólar por litro, e o produtor fica contente
com 16 a 20 centavos. Na Nova Zelândia, o produtor fica feliz
com 17 centavos de dólar. Não há diferença.
O negócio é individualizar", disse, concordando
com Teixeira Gomes. Em sua opinião, é importante que
as produções familiares intensivas sejam efetivamente
intensivas, produzam 20 a 25 mil litros por hectare ao ano. "O
Brasil não é competitivo a pasto, tem carrapato, sol.
O que é muito bom aqui é polpa cítrica, silagem
de milho. Este é o caminho, e confinado", provocou.
A
questão seguinte partiu de Gitânio Fortes, direcionada
a Gomes, com relação à especialização
da atividade."Você acredita que a especialização
passa pela definição de atividades específicas
nas fazendas - produção de novilhas, produção
de alimentos, ou o produtor de leite sempre fará todas as
etapas da produção?" Em sua resposta, o professor
afirmou que há possibilidade de especialização,
pois as áreas médias são pequenas e a especialização
poderia dar mais competitividade. Ele aproveitou para abordar a
questão do uso de touros Nelore nas vacas leiteiras: "Isso
terá efeitos sérios, pois não teremos novilhas
para reposição. Não sou contra o uso de touros
zebuínos, mas desde que seja com tecnologia. Com inseminação,
sistemas de acasalamento. O que acontece hoje é um retrocesso
tecnológico.
Monteiro
provocou Galan: "No bolo do leite, a maior fatia está
ficando para quem? Em 1986, produtor tinha 64% da participação
do produto final. Em 1989, 293 litros pagavam um salário
rural; 2,2 litros compravam um mata-bicheira. Hoje, são 14
litros para comprar o mesmo mata-bicheira. Temos de recuperar o
que perdemos. Como recuperar?". Galan referiu-se à planilha
existente à época da regulamentação,
que vigorou até 1991, para responder ao questionamento. "O
ambiente competitivo de hoje é totalmente diferente. Não
se regulamenta mais e o mercado é quem manda. É bom,
é ruim? São mercados diferentes", rebateu, afirmando
ser difícil voltar a um ambiente como o de 1989, pois, atualmente,
há recuperação com perspectiva no longo prazo.
Segundo ele, tem produtor que ganha dinheiro. "O negócio
é saber como estão fazendo, e, se possível,
fazer melhor", indicou. Quanto à fatia do bolo, Galan
procurou responder referindo-se novamente ao leite pasteurizado:
"Sabemos que ele tem participação menor no mercado,
em relação ao leite longa vida, que permite uma remuneração
mais baixa. O consumidor julgou o que é bom. Insisto que
é complicado voltar à situação àquela
situação da regulamentação".
A
pergunta de José Hamilton Ribeiro foi destinada a Jank. Nela,
o jornalista questionou o produtor sobre a concorrência realizada
pela Prefeitura de São Paulo para servir leite na merenda
escolar, afirmando que ganhou uma empresa que não produz,
mas importa. "O que esperar de um governo que tem a bandeira
do social, mas que fornece leite importado?", alfinetou. Jank
comentou que a referida empresa era a mesma que fornecia no governo
de Paulo Maluf, sempre leite importado. Jank mencionou que ele próprio,
Tarcisio Duque e Jorge Rubez, conversaram com a prefeita e há
o compromisso do leite ser nacional. "Terão de comprar
leite produzido no país. Já batemos nessa tecla com
o PT três vezes", revelou. Jank aproveitou a pergunta
anterior, de Monteiro para Galan, e fez questão de frisar:
"Parte da solução passa pelo cooperativismo.
Temos de aprender com a Nova Zelândia, Austrália, Estados
Unidos, com o exemplo da Fonterra e da DFA. A exceção
é a Argentina, que tem cooperativismo mais fraco, mas tem
a situação mais diferenciada do mundo, com fertilidade
de solo e condições muito propícias para a
produção competitiva. Os demais se apóiam no
cooperativismo".
Segunda rodada
Na
segunda rodada de perguntas, a primeira questão foi formulada
por Duque, que se dirigiu a Galan abordando o comportamento da DPA
diante da produção brasileira. Haverá influência
do sistema de produção da Nova Zelândia? "A
DPA, assim como a Nestlé fazia, não interfere em sistemas
de produção, somente leva informações
de custos. Quanto a informações sobre sistemas, o
cenário brasileiro é diferente do que se faz na Nova
Zelândia", respondeu.
Xavier
indagou Jank, questionando sobre a opção de sua fazenda,
a Agrindus, de partir para a industrialização do leite
na própria fazenda, em parceria com o Leite Salute. "De
1996 a 1998, o setor passou por muitas dificuldades e, nesse momento,
tivemos a possibilidade de verticalizar", explicou. Na opinião
de Jank, a verticalização é um risco e não
é uma solução para todos os casos. "Fizemos
uma parceria inteligente, não nos metemos em mercado de marca.
Foi uma fórmula que deu certo", comemorou. Para ele,
a solução para o setor primário passa pelo
cooperativismo.
"Se
o senhor tivesse de elaborar um decálogo para ganhar dinheiro
com leite, o que escreveria?", desafiou Cafundó na pergunta
dirigida a Gomes. "Eu escreveria duas coisas: escala e tecnologia",
sintetizou o professor. De acordo com ele, é ilusória
a idéia de que menos tecnologia dá mais lucro, pois
o custo variável por litro pode ser maior com tecnologia,
mas sem ela a capacidade de resposta será baixa e o sistema
não cresce. "Em entrevistas com mais de cinco mil produtores,
constatei que a produção cresce para quem usa tecnologia,
não para quem não usa. Não se sustenta no longo
prazo. Essa opinião vem dos produtores", disse, aproveitando
para elencar outro ponto: produção familiar. "Há
um espaço muito grande, mas também com tecnologia.
Se não tiver, na próxima geração, não
continua", disse, resumindo o decálogo a três
pontos.
Na
questão dirigida a Galan, Meireles primeiro comentou que
o governo nunca utilizou a planilha da Embrapa, tendo os olhos sempre
voltados para a inflação. Depois, fez sua pergunta:
"Carlos Ghosn, o superexecutivo brasileiro que reergueu a Nissan,
disse que se uma economia está em crescimento ou o país
está em recessão, se o câmbio é favorável
ou desfavorável, a causa é sempre você mesmo.
Intervenções exteriores nunca são determinantes.
No melhor dos casos, dão um empurrãozinho. No leite,
é o produtor o responsável pelo sucesso ou fracasso?".
Galan concordou, dizendo ser preciso entender o mercado e se adaptar.
Enquanto alguns ganham dinheiro, os outros precisam ajustar-se para
continuar na atividade.
Na
vez de Fellipe, ele se dirigiu a Jank: "Gostaria de ouvir como
você enxerga o conflito entre indústria e produtor,
na maioria dos casos, equivocado. A indústria não
está massacrando o produtor, ela sofre pressão externa.
O que fazer para resolver esse conflito? Quem coloca preço
no leite do Brasil hoje?". Jank observou que, depois de 1991,
a polarização aumentou demais, com decadência
das cooperativas e crescimento das multinacionais. Ele contou que,
hoje, parece haver a retomada do cooperativismo. "Gostaria
que, no futuro, tivéssemos aqui uma espécie de DFA
(Dairy Farmers of America, a maior cooperativa de lácteos
dos EUA, resultante da fusão de quatro grandes cooperativas):
Itambé, CCL, Centroleite e Leite Nilza unidas em uma só
cooperativa. Isso seria extremamente benéfico, profissional,
a única maneira de inserir-se no mercado externo e fazer
frente à concentração no setor."Sobre
quem manda no preço, Jank foi taxativo: o supermercado. "É
a guerra entre varejo e indústrias que faz o preço.
O supermercado, quando quer, faz promoção com o leite
de qualquer um, e passa a dizer que tem de ser aquele preço".
Mesquita
questionou Gomes sobre o que este enxerga como bacias leiteiras
no futuro, e em qual modelo - pasto ou confinado -. Na opinião
do professor, não haverá um modelo único. "Depende
do custo de oportunidade da terra. Em Rondônia, Mato Grosso,
as terras são mais baratas, os modelos serão distintos
do que se verifica nas regiões tradicionais, com terra mais
cara. A produção se deslocou para regiões de
fronteira em função do leite longa vida, do queijo
e do leite em pó. Nas regiões de terra mais cara,
é preciso intensificar e aumentar a escala para obter lucro
compatível com outras atividades.
Fortes
indagou a Galan quando a DPA pagará por sólidos do
leite ao invés do pagamento por volume. "O ideal seria
o quanto antes", respondeu Galan. "Se quisermos nos inserir
no mercado internacional, devemos começar a falar em sólidos.
Mas é necessário que várias empresas comecem
a pagar por sólidos, não apenas a DPA. Precisamos
ter laboratórios independentes, apoiar a Redeleite, a rede
de laboratórios para análise do leite. Claro que as
empresas podem analisar o leite em seus laboratórios, mas
do ponto de vista da clareza comercial, devemos apoiar os laboratórios
independentes e fazer com que isso aconteça o quanto antes",
complementou.
Monteiro,
referindo-se a Jank como grande produtor de leite de qualidade,
perguntou-lhe: "Você não acha que aceitamos muito
passivamente o leite Longa Vida, que nos jogou no colo do supermercado?
Não acha que o Longa Vida também contribui para esse
mal que estamos atravessando?". Jank respondeu negativamente.
Para ele, o pasteurizado pagou o preço de sua incompetência,
aceitável para a época do tabelamento mas inviável
com o mercado liberado. "O Longa Vida chegou com nova tecnologia
e foi aceito pela população. O longa vida permitiu
dar vazão a grande quantidade de leite, formalizou enorme
quantidade de leite informal, principalmente nas regiões
Centro-Oeste, Nordeste e Norte", observou. Na opinião
de Jank, o pasteurizado precisa fazer a lição de casa,
assim como o setor precisa fazer a lição de casa:
"O leite é o produto agropecuário que conseguiu
unificar lideranças do setor primário com grande sucesso,
tem representatividade, conseguiu vitórias importantes como
no caso das leis anti-dumping. Falta uma lição de
casa importante, da CBCL, que se refere às cooperativas.
É um trabalho importantíssimo para esta geração
realizar, ou deixar para as gerações futuras,"
desafiou.
Ribeiro
dirigiu-se a Gomes abordando o avanço da soja sobre pastagem
e possíveis reflexos sobre o custo de produção.
Na opinião do professor, isso acontecerá com certeza,
devido ao custo de oportunidade da terra. "Em Goiás,
há 15 ou 20 anos, o preço que o produtor de leite
recebia era 20% a 30% menor que o percebido pelo produtor de Minas
Gerais. Hoje, é o mesmo preço praticamente",
comentou. Um dos motivos, segundo Gomes, é a modernização
de outras culturas em Goiás, o que aumentou o custo de oportunidade
da terra nestas regiões. Gomes citou também a modernização
da pecuária, que tem como efeito o aumento do custo operacional,
mas também o aumento da escala de produção.
"Mesmo que ganhe menos por litro, o ganho total é mais
interessante. A única maneira de compensar é aumentar
a escala. A margem de ganho tem diminuído, mas pode ser recomposta
caso se ganhe em escala", ensinou.
Duque,
ao questionar Jank sobre o que fazer e como remunerar pelo leite
em um país como o Brasil, de pouco consumo, baixo poder aquisitivo
e no qual a população prefere gastar com bebidas como
refrigerante e cerveja, teve como resposta as possibilidades do
marketing institucional. "A Láctea Brasil, a exemplo
norte-americanos, tem desenvolvido um trabalho de marketing",
afirmou. Para ele, é preciso saber porque os brasileiros
preferem gastar com refrigerante e cerveja a tomar leite, que é
mais nutritivo e mais barato. "O brasileiro consome 89% do
que consomem os norte-americanos em cerveja e 34% do que consomem
em leite. Por quê? Eles praticam o marketing institucional
do leite, o que o Brasil nunca fez. A Coca-Cola está aí
para provar que vale a pena - no mercado de cerveja, 39% do faturamento
bruto são gastos com marketing -. Para o leite, nada",
comparou, afirmando que a Láctea Brasil tem promovido marketing
educativo nas escolas, tendo atingido 300 mil crianças. De
acordo com Jank, é um trabalho simples, que começou
com os associados. Ele informou que os produtores estadunidenses
contribuem com algo próximo a 1% do seu faturamento para
campanhas como a "campanha do bigode". "Não
acredito em limitações de consumo pelo poder aquisitivo,
o problema está no marketing", reiterou.
À
questão de Xavier sobre o melhor modelo de produção
- extensivo ou intensivo - Gomes justificou que é necessário
observar os aspectos custo e oportunidade. O sistema que predominará,
que sobreviverá, em sua opinião, será o que
pagar melhor o fator limitante da produção. Terra,
para o professor, é um bom indicador porque pode ser utilizado
para outras atividades - laranja, milho, soja -. "Melhor será
o sistema que paga melhor", resumiu. Para Gomes, em regiões
de terra mais baratas, sistemas mais extensivos podem se justificar,
mas em regiões de terra mais cara, é preciso intensificar.
Cafundó
dirigiu-se a Galan com diversas questões: "A cadeia
leiteira está organizada para lutar contra o subsídio
europeu? Devemos lutar para que a reforma tributária seja
feita de forma igualitária? Ou para que haja leite na merenda
escolar efetivamente? A cadeia está organizada para isso?
Deve-se priorizar o mercado interno ou o externo para ganhar força
e representatividade?". O agrônomo da DPA opinou que
a cadeia de lácteos está pouco organizada para lutar
contra esses aspectos, até mesmo com relação
à Instrução Normativa 51, pois não há
100% de convergência a seu favor, já que existem setores,
principalmente no sul do País, que não concordam com
a legislação. "Falta convergência de interesses
mútuos", criticou. No tocante a outros assuntos, como
negociação internacional, Galan afirmou enxergar uma
situação mais complicada, pois tem outros produtos
envolvidos. "Acho que ainda temos grande oportunidade de vender
no mercado interno. A elasticidade-renda do consumo de leite - aumento
do consumo em relação à elevação
da renda -, para quem recebe menos dinheiro, proporciona uma reação
brutal - 1% de aumento na renda gera aumentos significativos no
consumo -", projetou, declarando que, além das possibilidades
quanto à exportação, o Brasil tem um belo mercado
interno. As soluções, para Galan, seriam investir
em marketing e aumentar a renda da população.
Volatilidade
foi a tônica da pergunta de Meireles a Jank: "No mundo
em que tudo é temporário, como o produtor pode ganhar
dinheiro de forma sustentável em meio a tanta volatilidade?".
O agrônomo utilizou uma fala do presidente da Fonterra para
indicar que o Brasil é o único país que tem
possibilidade de crescer em consumo e em produtividade a custos
competitivos. Analisando o cenário mundial, Jank disse que
haverá importante crescimento de consumo no Leste europeu,
de forma que o excesso de produção da União
Européia poderá ser destinado a essa região.
Também, não se preocupa tanto com o subsídio
praticado pela União Européia, que tende a acabar.
Para Jank, há oportunidades para exportação
para a Ásia, além do consumo interno que tem muito
a crescer. "O mercado internacional de lácteos é
muito pequeno, só 5% da produção mundial é
comercializada entre os países. Estas oportunidades de crescimento
podem reduzir a volatilidade à medida que temos direcionar
a produção para diversos mercados", disse. "O
leite estará incluído entre cana, laranja, carnes,
café, produtos nos quais o Brasil é competitivo. O
problema maior era o câmbio. Com ele, o País perdeu
muito mais do que com subsídio internalizado", avaliou.
E brincou: "Se cada chinês tomar um copo de leite, o
problema estará resolvido".
Fellipe
perguntou a Gomes porque o leite não tem o mesmo destaque
de outras cadeias. "O país tem divulgado com orgulho
que é o maior exportador de carne bovina; a soja superou
os EUA. Isso entristece, pois não se fala do leite, uma cadeia
importante. Temos o segundo maior rebanho, e ninguém fala.
Falta pesquisa? Quem deve fazer (regionalmente)?", continuou
Fellipe. Para o professor, é indiscutível que a Embrapa
passa por dificuldades, sendo obrigada a liquidar muitos animais,
vendê-los em leilões, por não ter dinheiro para
comprar ração e outros insumos. Outro aspecto importante,
em sua opinião, é a imagem que se tem no Brasil de
que produzir leite é mau negócio. A seu ver, leite
é um negócio como qualquer outro. "O café
está péssimo, o suíno está péssimo.
É bom para uns, mau para outros", confrontou. No Brasil,
segundo Gomes, dois locais - São Paulo e Brasília
- formam eco, pois a mídia nacional está mais concentrada
em São Paulo. Predominam informações desse
estado e de regiões próximas, como se no Brasil acontecesse
somente isso, refletindo o desempenho da atividade em solo paulista
e em outras regiões. "É uma injustiça
taxá-la como mau negócio, como se vê no noticiário.
Se fosse, a produção não estaria crescendo
como está", reforçou, referindo-se a uma análise
de desempenho realizada na década de 1990, na qual o frango
de corte estava em primeiro lugar, a soja em segundo, e o leite
em terceiro. "O desempenho do leite tem sido espetacular."
As
incertezas relativas ao preço do leite foi o assunto que
Mesquita lançou a Galan: "O produtor de soja pode acompanhar
cotação na Bolsa de Chicago, fazer hedge, comercializar
a produção antes de plantar. Nós esperamos
todo mês pelo preço que a cooperativa ou o laticínio
vai nos pagar. Como planejar a atividade com essa incerteza? Como
trabalhar para ter preço organizado?". Desde que haja
clareza na cadeia, Galan afirmou que não há problema
nenhum passar previsão de preço. "A DPA indica
um preço mínimo que a empresa praticará e tem
índices para dois ou três anos, parâmetros que
independem do mercado - 80% a 90% do preço no ano podem ser
previstos", respondeu. Segundo ele, a empresa tem interesse
em tornar mais transparente as informações de preços
não só ao produtor, mas ao longo da cadeia.
A
terceira pergunta de Fortes dirigiu-se a Jank. O jornalista, referindo-se
à opção pela verticalização adotada
pelo produtor que hoje tira 36 mil litros dia, questionou-o sobre
qual a margem de lucro que tem e se é preciso ter 20 mil
litros para verticalizar. Jank disse que o leite A é uma
aberração brasileira. "Em nenhum lugar do mundo
o leite precisa ser envasado para fazenda para ser considerado grade
A". Sobre a margem, ele lembrou que 40 mil litros diários
resultam em 12 milhões de litros por ano: "Cada centavo
de margem levaria a R$ 120 mil de margem no ano; cada centavo de
prejuízo representaria R$ 120 mil reais de prejuízo".
Ele comentou que chegou a vender o litro de leite por US$ 0,45 e
por US$ 0,08 no mesmo ano. "Não há tecnologia
que resista a isso, também é uma aberração",
reforçou. "Hoje, fico muito feliz com margem de US$
0,01 por litro, que remunera com 7% a 10% ao ano o capital investido",
afirmou.
Monteiro
pediu um conselho a Gomes para os pequenos produtores que querem
tirar leite. O professor, citando uma pesquisa que incluía
um questionário com a pergunta "Por que tirar leite?",
afirmou que a grande maioria dos pequenos respondeu que produzia
leite por causa da renda mensal, não que dava muito lucro.
"A questão do pequeno deve ser vista nesse ângulo",
disse Gomes. "Tenho experiência de orientar pequenos,
mas, se não adotar tecnologia, os filhos não continuam.
O emprego é a questão maior, resolve-se o problema
de uma geração e não da seguinte. Os filhos
que continuam são os que têm retorno na atividade.
Conheço muitos pequenos e outros médios e grandes
que eram pequenos, mas sempre na visão de desenvolvimento,
de tecnologia e não condenados a viver eternamente pobres",
ponderou.
Galan
foi indagado por Ribeiro sobre o potencial do leite condensado,
à medida que o Brasil produz "leite a preço baixo,
açúcar barato e lata barato". O agrônomo
revelou dados referentes a 2002, indicando que 50% dos derivados
lácteos exportados foram na forma de leite condensado. "O
potencial é altíssimo, mas o grande mercado internacional
é de leite em pó, que concentra 70% dos negócios.
Temos, no entanto, uma oportunidade inegável por conta da
competitividade dos três produtos mencionados, mas é
preciso pensar no leite em pó para sermos de fato importantes
na exportação", confirmou, dizendo que a DPA
tem sido responsável por grande parte das exportações
de leite condensado.
A
vez do público
A
última etapa do debate abriu espaço para a participação
do público, composto por produtores de leite, dirigentes
de entidades de classe, diretores e técnicos de cooperativas
e de laticínios particulares, executivos de empresas de equipamentos
e insumos para a pecuária leiteira, consultores, técnicos
de organizações governamentais e jornalistas, todos
envolvidos com a cadeia produtiva do leite.
Soro,
agregação de valor, preço, impostos, cooperativismo,
pequeno produtor, parcerias, fraude, sonegação, cadeia
láctea, competitividade, entre outros assuntos, foram lançados
aos entrevistados.
A
primeira pergunta, dirigida a Gomes, partiu de Luis Fernando Martins,
da empresa Barbosa & Marques, de Governador Valadares, MG, e
tocou no assunto da bebida Láctea: "A indústria
de queijo consome 30% do leite do Brasil. O soro é jogado
no rio, e, com a atual legislação sobre meio ambiente,
quem jogar irá para a cadeia. Por outro lado, custa um absurdo
tratar soro. A bebida láctea é criticada por grande
parte das lideranças dos produtores; a indústria defende.
O senhor é contra ou a favor?". O professor rebateu
dizendo que há muitas aplicações legais do
soro. Assim, é uma questão de disputa de mercado,
não de ilegalidade. "É preciso separar o produto.
Bebida láctea não é leite. Se o produtor recebesse
pelo soro, tudo bem. Se não receber pelo soro e a estratégia
oferecer concorrência ao produtor de leite, será prejudicado.
Somente deixará de ser prejudicial caso se pague pelo soro",
analisou, ganhando aplausos do público.
Edgar
Pereira, da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Leite do
Mato Grosso do Sul, manifestou-se comentando a posição
de Jank quanto ao marketing enquanto forma de agregar valor ao leite.
Aproveitou a oportunidade para comentar sobre a posição
do agrônomo sobre a união dos elos da cadeia láctea
nacional.
Jank
também foi o alvo da pergunta de Antonio Vilela Candal, produtor
de leite da Colap (Cooperativa de Laticínios do Alto Paraíba/SP),
sobre o preço do leite relativo ao dólar, "sujeito
às mazelas governamentais". Sua questão - "Como
ter um preço estável em nível nacional e internacional,
e que dê segurança para o produtor?" - encontrou
nas palavras de Jank uma outra direção, voltada ao
setor privado: "Mazelas (governamentais) existem, mas temos
de resolver os problemas do setor privado dentro do setor privado.
Mazelas que atrapalham são as da pergunta anterior, do soro,
que entrou via fraude. Bebida láctea branca é aberração,
não existe em lugar nenhum. É a legalização
da fraude. Cumpre ao governo normatizar e fiscalizar. Esse é
o papel do governo", sintetizou.
A
questão seguinte partiu de Ciro Oliveira, do Sindicato Rural
de Cesário Lange/SP, sobre a saída para o pequeno
produtor, direcionada a Gomes. A resposta do professor levou ao
cooperativismo: "Se a questão é importante para
o grande produtor, para o pequeno, é ainda mais. Este deve
unir-se em cooperativa, associação, para tentar sobreviver
neste mundo de grande disputa. Pensando no prazo maior, vale para
o produtor a mesma lógica de tentar melhorar. Viçosa
tem muitos produtores com 30 a 40 litros, os quais, em seis anos
de trabalho, chegaram a 300 a 400 litros. Podem dizer: 'Ah, demora
seis anos?'. Sim. Tem gente que fica seis anos sem fazer nada",
brincou. Gomes insistiu no uso da tecnologia. "Logicamente,
há medidas que se podem tomar e, a conta-gotas, melhorar
a situação do sujeito. Mesmo com poupança pequena,
mediante um trabalho bem-orientado durante cinco ou seis anos, muda-se
a realidade do produtor. Manter o produtor atrasado não é
correto", acrescentou.
Fernando
Kachan, representante da Láctea Noroeste (Associação
de Leite da Noroeste Paulista) dirigiu-se a Galan, alfinetando:
"A Nestlé derrubará os preços do leite
como fez em 2001?". O agrônomo da DPA, disse que é
interesse da empresa se o preço está alto ou baixo,
se produtor está bem ou mal. "Se for nosso fornecedor,
quero que seja sempre. Se existe movimentação de preço,
deve-se ao mercado consumidor e à oferta, não à
empresa. Insisto na importância da informação,
informamos o que tende a acontecer. Se tiver de cair, cairá.
Se todos os produtores saírem, no limite, não teremos
mais leite e as 12 fábricas da DPA no Brasil fecharão.
É o mercado que faz com que o preço caia ou suba.
Gostaria que o preço permanecesse sempre alto, mas não
acho que continuará", previu.
Marius
Bronkhorst, produtor de Arapoti, PR, referiu-se a parcerias ao solicitar
um comentário de Jank sobre o preparo do Brasil diante da
ALCA, em virtude do que aconteceu com a criação do
Mercosul, quando a Argentina "inundou" o Brasil com seu
leite. Na opinião do agrônomo e produtor, o Brasil
é competitivo e não há porque temer a Argentina,
que está quase com o mesmo câmbio do Brasil. "Os
EUA podem ser perigosos, mas criaram uma agenda de marketing de
lácteos e hoje são importadores líquidos de
leite", informou. Para Jank, para ser grande exportador, o
Brasil terá de ser grande importador, ou seja, o fluxo comercial
precisa aumentar. "Precisamos sim é que entrem sem práticas
desleais de comércio na origem. Os blocos consolidados estão
em equilíbrio. A ALCA é um avião que temos
de pegar, mesmo que não saibamos ao certo o destino",
desafiou.
Jank
também foi alvo da questão seguinte, formulada por
Marcello de Moura Campos Filho, da Leite São Paulo, que perguntou
como um produtor de 500 a 1,5 mil litros pode sobreviver no atual
cenário de competição desleal, fraude e sonegação.
"Em 1988, 25% do leite eram informais. Chegamos, em 1997 a
1999, a andar na contramão da história. Hoje, estamos
no caminho inverso. A informalidade, atualmente, chega a 30%, mas
tem caído", ponderou Jank. As fraudes também
estão caindo, informando que a atual proporção
de fraudes corresponde a 7% das amostras, contra mais de 30% antes
da implantação do programa anti-fraudes. Jank afirmou
que existem também soluções individuais, onde
cada produtor precisa encontrar seu caminho. Para Jank, "a
guerra fiscal é um dedo na ferida, mais uma aberração
brasileira, a exemplo do crédito na origem, em que o produto
sai de São Paulo, vai para Minas Gerais e volta com crédito.
A solução é política, via governo, e
precisamos pressioná-los".
Alexandre
Mendonça Pedroso, da Esalq/USP, foi mais um que disparou
sua pergunta a Jank, solicitando os pontos fundamentais para o Brasil
ser mais competitivo. "Devemos procurar vantagens comparativas
enquanto produtores brasileiros", respondeu o agrônomo,
citando, entre elas, o capim tropical, o qual, em sua opinião,
é preciso saber usar, mesmo em confinamento. "Eu forneço
uma dieta relativamente barata, pois 13% a 14% da matéria
seca vêm do capim tropical - tifton cortado verde-, complementado
com a forrageira base, no caso a silagem de milho". Além
disso, eu sua fazenda, 100% do esterco são reaproveitados
em área de gramínea tropical. "É uma solução
inteligente, prática. Um trunfo que só o Brasil tem
condições de oferecer", explicou.
A
pergunta seguinte, também dirigida a Jank, partiu de Aloísio
Gomes, da Embrapa Gado de Leite: "Você enfatizou a coordenação
da cadeia produtiva. Paralelamente ao cooperativismo, a adoção
de contratos poderia favorecer? Você não acha que a
doutrina cooperativista é insuficiente para garantir a fidelização
dos cooperados? A cooperativa de nova geração não
teria de ter contrato para ter soluções claras diante
de ganhos e perdas?". Jank demonstrou preocupação
com relação aos contratos: "No passado, os contratos
não eram cumpridos. Se fosse cumprido um contrato fixo, significaria
que alguém ganharia a mais e alguém sofreria na ponta
para fazer um preço médio que justificasse a sobrevivência
da indústria. Essa relação contratual entre
produtor e indústria tem de evoluir, com a indústria
correndo risco de mercado com o produtor", analisou, questionando
porque a DPA não faz cesto de produtos com leite Ninho e
outros, amarrando o preço ao produtor. Jank lembrou que o
Conseleite, no Paraná, é uma iniciativa interessante
e que caminha nesse sentido, dando uma referência para o preço
do leite a partir de uma cesta de produtos. Galan disse que, mais
importante do que contratos ancorados em cesta de produtos, era
termos referências de preços regionais, a partir de
volumes definidos de produção. "Que preços
temos para um produtor de 500 litros no sul de Minas Gerais? Não
temos resposta. Ter isso de forma transparente seria benéfico
para toda a cadeia", incentivou.
A
questão de Francisco Peres Jr., da Secretaria de Agricultura
do Paraná, dirigida a Gomes, referiu-se aos elos da cadeia
láctea: "Na cadeia do leite, os elos indústria
e varejo estão hoje dominados por multinacionais, possuem
maiores margens de comercialização. O que fazer com
os elos mais fracos? O que fazer para acordar um gigante adormecido
chamado Brasil no aspecto leite e pensar em políticas de
longo prazo?", desafiou. A resposta do professor sinalizou
que o problema passa pela mobilização dos produtores:
"Sabemos o quanto é difícil mobilizar. Muitas
vezes são marcadas reuniões e aparecem dois ou três,
mas, enquanto não se mobilizarem, não ganharão
nada. Se quiserem ganhar, têm de 'tomar'. Ninguém dará
nada de graça", indicou.
Décio
de Almeida Boteon, da Láctea Noroeste de Rio Preto, SP, ao
questionar Jank, sugeriu que, após as CPIs do leite em vários
estados, o governo fez pouco ou nada, citando a expressão
"farra do soro" no leite fluido e em pó. E se as
fraudes fossem colocadas na mídia, isso não seria
desastroso para o setor?", disparou. Quanto às fraudes,
Jank disse que estas têm de ser discutidas internamente, que
não podem cair na mídia, pois seria uma anti-propaganda
do leite, com efeitos muito ruins. Ele comentou também sobre
o desequilíbrio com o varejo. "É importante que
haja a união dos diversos elos que estão à
montante do varejo como forma de defesa do setor.
Roberto
de Moura Campos quis saber de Gomes como produzir leite com 30%
de margem bruta, pois em sua fazenda os resultados são muito
inferiores. Empregando dados de 2002, levantados em pesquisa recente
com produtores com até 5 litros/vaca e outros com 12 litros/vaca,
o professor afirmou que os que têm até cinco litros
por vaca não têm motivo para achar que leite é
bom negócio, mas aqueles com mais de 12 têm remuneração
compatível. "O leite, para alguns, é um ótimo
negócio; outros têm perdido dinheiro. Uma produção
que registra crescimento em torno de 4% ano sinaliza que muitos
têm ganho dinheiro com a atividade", esclareceu.
A
pergunta seguinte, em direção a Jank, foi elaborada
por Mauricio Silveira Coelho, da Fazenda Santa Luzia: "Você
não acha que é necessário fazer auditagem nas
cooperativas de produção aos moldes das de crédito?
E o índice de produção de 25 a 30 mil kg de
leite por hectare que você mencionou como necessário
-somente o confinamento bastante eficiente é capaz de chegar
a estes valores. Isso está distante da realidade dos produtores",
comentou. Jank provocou: "É precisar estar no sistema
cooperativista para mudá-lo. Gostaria de vê-lo no sistema".
Sobre a produtividade de 25 mil litros por hectare ao ano, Jank
respondeu que se trata de um sinalizador mercadológico comum
a diversas culturas. Por que só o produtor de cana ou de
soja tem é inteligente e tem de ter produtividade elevada?
O leite é o primo pobre da agropecuária", argumentou,
afirmando que, nos Estados Unidos, o governo nunca apoiou o pequeno
produtor, mas a pequena propriedade, desde que produtiva.
Valdemir
dos Santos Cevada, do Sítio Dois Meninos, provocou Jank comparando
o pequeno consumo de leite no País em relação
ao de refrigerante e cerveja. "Já se fez algum trabalho
do porquê desta situação? Pensou-se em divulgar
o leite em estádio de futebol? Ou usar embalagens diferentes?",
elencou. A afirmação de Jank retormou a importância
do marketing. "O adulto brasileiro tem vergonha de tomar leite
na frente dos outros. Qual a resposta? Marketing. Nos EUA, o adulto
pede leite para beber. Aqui, se algum adulto fizer isso, será
visto com estranheza pelos outros. Temos de ensinar a tomar leite.
Uma lei que nunca será mudada é a do estômago,
que tem limites na capacidade de ingestão líquidos.
Nunca mudaremos essa capacidade, portanto, os inimigos são
os outros líquidos. O que fazer? Marketing. Nós não
fazemos isso", analisou.
Ainda
com relação ao marketing, o produtor José Eduardo
de Oliveira questionou Jank sobre utilizar a mídia, citando
a Rede Globo. O problema é a conta, como sinalizou o agrônomo:
"A DMI (Dairy Management Inc.), entidade que gerencia o dinheiro
aplicado ao marketing de lácteos nos EUA, conta com a arredacação
dos 75 mil produtores. Aqui, encaminhamos um Projeto de Lei em Brasília
sobre a possibilidade de termos a contribuição compulsória.
Quem pagará a conta? O produtor. Se não quisermos
pagar, como não temos o hábito de pagar entidades,
tudo bem, a escolha é nossa. Se a lei passar, teremos as
mesmas chances dos produtores dos EUA, onde o consumo de lácteos
aumentou significativamente a ponto do país ser importador
líquido. Senão, deixaremos para a próxima geração
resolver esta questão", enfatizou.
O
assunto marketing - e o porquê de não ser mais utilizado
-continuou na pergunta de Roberto Melo Carvalho, da Girolando RBC,
em Cássia, MG, a Jank, que rebateu: "Não existia
a iniciativa, nunca ninguém se associou para fazer marketing
institucional de leite. Por que não se faz mais? Porque não
tem dinheiro. A Láctea Brasil tem 150 empresas associadas
em um trabalho que já dura quatro anos. Quem é o primeiro
beneficiado? A indústria de laticínios, mas apenas
12 laticínios fazem parte da Láctea Brasil".
Carvalho também aproveitou para questionar Gomes sobre os
custos nas raças Girolando e Holandês. A resposta do
professor indicou que é preciso associar custo por litro
com capacidade de resposta do sistema de produção.
"Se pegar uma propriedade com baixíssima tecnologia,
custo pequeno, não há como crescer. O importante é
trabalhar com modelos que permitam a resposta mais rápida,
além de se pensar em lucro ao produtor por ano, não
por litro. A relação custo/preço só
tem sentido se o sistema tiver grande capacidade de resposta por
ano", respondeu.
O
professor de Viçosa também foi alvo da questão
de Darci Bittencourt, da Embrapa do Rio Grande do Sul, outro representante
do público do pinga-fogo a abordar o marketing, segundo o
qual um dos fatores que as indústrias alegam para achatar
preço ao produtor é a queda de demanda devida à
diminuição de renda do consumidor. "O que diz
da Portaria 222 de agosto de 2003 sobre invólucros de laticínios,
com advertência do Ministério da Saúde dizendo
que o produto não deve ser administrado a crianças
com menos de seis meses de idade a nao ser sob critério do
médico e nutricionista", levantou. Gomes reforçou
a necessidade de esclarecimento e marketing e, quebrando o protocolo,
passou a pergunta a Xavier, para quem a recomendação
do Ministério da Saúde alega acordos internacionais
direcionados à orientação para o aleitamento
materno. "Na hora em que a Portaria entrou em vigor, não
perguntamos quais paises signatários desse acordo têm
essa mensagem. Duvido que um país que consome leite faça
isso. O problema é que a portaria foi submetida a consulta
pública e nada foi feito, não esperneamos", lamentou.
Outro
representante do público, Fabrício de Carvalho Geraldo,
da Faculdade de Zootecnia da USP, dirigiu-se a Gomes dizendo que
grande parcela dos produtores não é assistida, pelo
menos em tecnologia. "É assim, quem é assistido
e tem tecnologia ganha e quem não é, não ganha?",
disparou. Citando sua experiência, o professor afirmou que,
na região de Viçosa, há muitos produtores que
produzem apenas 30 a 40 litros diários. "Não
é fácil, não é rápido, mas acho
que, se traçarem planejamento para cinco ou seis anos, conseguirão
melhorar. Em um ano não, mas em cinco ou seis, sim. Não
sou pessimista a ponto de achar que o sujeito está condenado.
Se já começa com raiva não adianta. Existem
soluções, planejamento de médio prazo, mas
é preciso mudar a atitude com relação à
produção", ensinou.
Rodrigo
Alvim, da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da
CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária
do Brasil), fechou o debate questionando Galan sobre a paticipação
da indústria no mercado: "Os produtores gostariam de
entender melhor do mercado. Neste ano, estamos com as exportações
praticamente iguais às do período de janeiro a setembro
de 2002. As importações estão cerca de 60%
menores que as do ano passado, a produção não
tem tido cescimento significativos. Chegamos ao fatídico
outubro, dos preços reduzidos. Como entender esse mercado
se a indústria diz que a queda dos preços se deve
ao mercado e a informação do IBGE é que ele
caiu apenas 0,45%? Será que não há risco de
repetirmos 2001, cuja política de preços resultou
em desestímulo, falta de leite no ano seguinte e aumento
das importações a preços que alcançaram
US$ 1,8 mil por tonelada?", inquiriu, pedindo a Galan uma opinião
quanto ao preparo das indústrias e a possibilidade de voltar
a situação vivida dois anos atrás. Galan disse
ser necessário agregar os números. "As vendas
de produtos refrigerados caíram 15% de janeiro a setembro
neste ano em relação aos dados de 2002, o leite em
pó, 1% e daí por diante. Por outro lado, fazemos levantamento
com produtores. Antes de analisar os números, é importante
entender o desequilíbrio entre oferta e demanda. Em 2001,
tivemos problemas com apagão, consumo, oferta, antidumping.
Não há vantagem para a indústria ao pagar menos
e fazer com que o produtor sofra e tenha prejuizo, senão
ele deixará de fornecer amanhã. É a natureza
do mercado, não se trata de 'forçar a barra'. Ainda
estamos importadores líquidos, todo volume adicional de produção
é bem-vindo. A elasticidade é enorme, e o ganho de
renda gera um consumo brutal", justificou.
Fonte:
Marcelo Pereira de Carvalho e Mirna Tonus, da Equipe
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