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Leite
Brasil sai em defesa do produtor brasileiro
Revista
Leite & derivados - nº 79 - Agosto/2004 - páginas 6, 8 e 10
por Renato Zabeu Nalesso
Filho e neto de produtores de
leite, Jorge Rubez seguiu a tradição familiar e fez dela uma paixão
de sua vida. Produtor no Vale do Paraíba, há mais de 40 anos luta
pelos ideais da cadeia leiteira. Ex-presidente da antiga Associação
Brasileira dos Produtores de Leite B, presidente da Associação
Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), criada em 1997
para substituir a ABPLB a pedido das cooperativas de leite, Jorge Rubez nesta
entrevista exclusiva para a Revista Leite & Derivados fala sobre
as ações que a Leite Brasil está tomando para beneficiar o setor,
aponta falhas na política de preços do leite e se revela otimista
com as exportações de lácteos do país.
Quais as principais metas da
entidade para 2004?
Estamos defendendo o mercado
interno, não deixando entrar no Brasil leite subsidiado ou com preços
resultantes de dumping. Esse trabalho foi iniciado há alguns anos e
já vencemos uma vez. Chegamos inclusive a um acordo com o Mercosul
e parte da União Européia. Recentemente, entramos novamente com um
pedido de investigação. Ao entrar com esse pedido, prorrogamos por
um ano o prazo de vigência do acordo. No entanto, nesse período
temos de acatar todos os pedidos do Departamento de Comércio
Exterior (Decom). Tudo isso para poder provar que continua havendo
dumping no País. Outro ponto importante é o trabalho que estamos
fazendo junto à Câmara Setorial Federal para criar uma nova política
de longo prazo para o setor de leite.
O Brasil é um dos principais
produtores mundiais de leite. O que é preciso fazer para se tornar
um dos maiores exportadores?
Temos de mudar a mentalidade e
parar de vender o que sobra. O mercado externo é exigente e
competitivo. O Brasil está iniciando nesse caminho e seu potencial
é muito grande. Na verdade, exportamos porque o mercado interno
consome pouco leite. Se o consumo fosse maior, não teríamos o
produto para exportação. Em 2003 o Brasil exportou US$ 50 milhões
e, em 2004 existe uma previsão de duplicação desse faturamento.
Uma virada de jogo, pois o país chegou a importar US$ 500 milhões
de produtos lácteos até tempos atrás. Pela primeira vez na história
é possível que neste ano tenhamos um superávit na balança
comercial do leite.
Quais são as principais tendências
do setor?
Temos de atuar na política pública
e dentro do setor cooperativado. As cooperativas tinham, no passado,
cerca de 70% de domínio do mercado. Perderam rapidamente espaço,
mas estão se reerguendo agora. O sistema cooperativado é a melhor
saída para os produtores. No Brasil, deveria existir uma mesma
linguagem quando se fala de leite, pois quando as entidades têm
opiniões divergentes uma delas sempre vai se enfraquecer no final e
isso é um prejuízo muito grande para o segmento. Um problema sério
que estamos enfrentando agora é a sazonalidade no preço, que é
muito maior que a sazonalidade no leite. Teríamos que ter uma política
de preços retilínea. Esse sobe-e-desce não pode existir, a não
ser que exista sobra de produto.
Como analisa o quadro da pecuária
leiteira nacional?
A situação atual do produtor não
é muito confortável. O setor produtivo saiu de uma crise muito
grande no ano passado. Precisamos de uma política de preços lógica.
Todo mundo que trabalha tem direito a lucro. Não se pode, em uma
cadeia como a do leite, só um segmento ganhar, como o dos
supermercados. Isso ficou provado em um trabalho realizado pela
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pela
Fundação Getulio Vargas (FGV), com participação da Leite Brasil
e outras entidades que representam diversos segmentos, denominado
'Impactos verticais da concentração do setor varejista
brasileiro'. Este trabalho teve por objetivo analisar a concentração
neste setor, verificar se isto era verdade. Com base em dados de
concentração de mercado em outros países e analisando o caso
brasileiro, foi possível chegar a uma grande conclusão: a despeito
do que se pensava, o consumidor também é afetado por esse tipo de
concentração dos supermercados. Todas as outras conclusões –
taxas ou mecanismos financeiros utilizados pelo grande varejo para
pressionar o seu fornecedor – já eram conhecidas, fruto de
investigações em várias CPIs, inclusive a do leite. Na concepção
anterior o consumidor se privilegiava dessa situação, porque na
medida em que os supermercados apertavam os fornecedores no preço,
o consumidor seria beneficiado porque teria um preço menor. Ficou
provado que o consumidor é também prejudicado. Essa foi a grande
descoberta: o consumidor estava pagando mais em suas compras nos
supermercados.
É possível comparar a cadeia
produtiva de lácteos dos países desenvolvidos com o setor no
Brasil?
Sim, as indústrias top do Brasil não
deixam nada a desejar. A Nestlé daqui é a mesma de lá, senão
melhor. Com relação às fazendas, podemos observar aquelas
espetaculares, que também não ficam atrás de nenhuma do exterior.
E temos as pequenas fazendas, dos produtores de leite informal, o
chamado produto in natura que, no entanto, não dispõe da qualidade
que um leite precisa ter. Esse setor teima em crescer porque as
pessoas valorizam o leite informal como se fosse natural. Isso é um
equívoco porque esse leite não passa por nenhuma inspeção.
Como aumentar o consumo de leite
no Brasil?
É difícil dizer. Uma das formas
seria por intermédio da propaganda e marketing. Mas só isso não
basta, porque grande parte da população brasileira não tem poder
nenhum de compra. Invertendo o sentido da frase, o Brasil tem bolsões
de riqueza e não de pobreza. O consumo per capita de leite no país,
que é de 127 litros, continua muito aquém do índice recomendado
pelos organismos de saúde. A Argentina, para não ir muito longe,
tem um consumo próximo de 200 litros per capita.
O que o segmento lácteo
representa para o Brasil economicamente falando?
Para se ter uma idéia, depois do
emprego público, a pecuária de leite, empatada com a construção,
é o segmento que mais emprega no Brasil. Com relação à área
econômica, o segmento lácteo é o sexto maior em geração de
renda do setor agropecuário no País.
Como analisa o parque industrial
brasileiro, sobretudo após a crise da Parmalat?
Existiu uma época em que o setor
industrial estava melhor porque não existia uma concentração de
varejo tão forte. Os pontos de vendas eram apenas as panificadoras.
Com o advento das mudanças de hábitos alimentares dos cidadãos,
ocorreram mudanças no varejo. Essas mudanças fizeram com que a indústria
enfraquecesse e não tivesse mais o poder de determinar os preços
de seus produtos. Em relação à Parmalat, ela veio com uma estratégia
de marketing muito forte no Brasil. Conquistou o mercado rapidamente
e agradou os consumidores. A falência da companhia foi um baque
muito forte para o setor, mas acredito que as coisas já estejam se
estabilizando. Os fornecedores da Parmalat já estão produzindo
para outras indústrias. Quem mais saiu perdendo nessa história
foram os funcionários, que ficaram desempregados.
Os produtores têm condições
de atender à legislação, que impõe metas progressivas de aumento
da qualidade do leite a partir de 2005?
O consumidor tem o direito de
exigir um leite de qualidade, para que ele possa dar a sua família
toda a segurança alimentar. Aos produtores, cabe atender às normas
impostas pela legislação. Eu costumo dizer o seguinte: o produtor
tem de fabricar um leite no qual ele tenha coragem de dar para seu
filho e sua família.
Qual é a análise que faz do
ranking das maiores empresas de laticínios no Brasil em 2003,
elaborado pela Leite Brasil e outras instituições?
Detectamos pequena queda na produção,
grande redução do número dos produtores, e grande aumento da
produtividade no período 2001/2003. Em resumo, essas são as
principais conclusões de pesquisa da Leite Brasil, Confederação
Nacional de Agricultura, Organização das Cooperativas Brasileiras,
Confederação Brasileira das Cooperativas de Laticínios e Embrapa
Gado de Leite, nas 15 maiores empresas de laticínios do País. A
pesquisa revelou que os 6,310 bilhões de litros recebidos em 2001
passaram para 5,958 bilhões em 2002 e para 5,907 bilhões em 2003
– decréscimo de 0,55%. A queda do número de produtores foi
maior, chegando a quase 20%. Em 2001, eram 116 mil, que diminuíram
para 98 mil em 2002 e para 94 mil em 2003. Já a produtividade diária
cresceu mais de 20%. Em 2001, era de 149 litros por produtor,
subindo para 165 litros em 2002 e 171 litros em 2003.
Houve troca de posições
significativa no ranking?
Não houve alteração na posição
dos cincos primeiros colocados em relação aos anos anteriores. O
primeiro lugar continuou sendo da Nestlé, agora com nome de DPA
[Dairy Partners Americas], seguida pela Parmalat, cuja captação não
tinha ainda sofrido reflexos da crise. Em terceiro lugar, vem a
Itambé, de Minas Gerais, depois a Elegê, do Rio Grande do Sul, e a
CCL, de São Paulo. Esses cinco laticínios respondem por mais de
50% do total da produção do ranking. Se houve grande salto no
ranking, ele foi dado pela cooperativa Central Leite Nilza, de
Ribeirão Preto (SP), que pulou para a sétima posição. Em 2002, a
empresa estava na 11ª posição. Isso é sinal de que o
cooperativismo está em alta, tendência revelada pelo estudo: no
período 2002/2003, a captação das cooperativas subiu, enquanto
que a dos laticínios privados caiu. Em 2003, a produção dos 15
laticínios do ranking somou 5,9 bilhões de litros, quase 50% da
produção nacional de leite.
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