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O
fim da era Parmalat ?
A
morte de qualquer empresa é uma tragédia sócio-econômica.
Quando a empresa é a Parmalat, a tragédia é
maior ainda. Não é apenas uma grande empresa em perigo,
mas uma verdadeira instituição da agroindústria
leiteira mundial. Junto com a Nestlé e a Danone, a Parmalat
forma o trio das marcas lácteas mais famosas do mundo. É
uma empresa que sempre pagou em dia seus fornecedores de leite do
Brasil, verdade deve ser dita.
Poucas
vezes assistimos um alvoroço tão grande no setor como
o da crise da Parmalat, merecendo inclusive cobertura diária
pela grande imprensa. Mas dentro de pouco tempo tudo vai passar.
Se a empresa não resolver seus problemas, alguém logo
vai ocupar seu lugar na captação de leite e no mercado
consumidor. Afinal, a vaca nem sabe quem são os donos da
Parmalat. O negócio dela é produzir leite e nada mais,
o que já é muita coisa.
O
eventual fim no país da Parmalat não interessa a ninguém.
Perdem seus 6 mil funcionários, produtores, cooperativas,
fornecedores, instituições de crédito, prestadores
de serviços, Governo. As chances de sobrevivência da
companhia são grandes, já que a crise que atravessa
não arranhou a boa imagem de seus iogurtes, leites, queijos,
no mercado nacional e mundial. Eles continuam sendo vendidos normalmente.
Caso
fosse o contrário, má qualidade de produto, a Parmalat
já teria soçobrado, como é praxe. Anos atrás
a botica Ao Veado de Ouro, que atendia os paulistanos há
mais de 50 anos, fechou em poucos meses após a notícia
de que seus remédios deixaram de ser confiáveis. Agora
mesmo, os EUA perderam bilhões de dólares quando outros
países cancelaram importações de carne americana
devido à vaca louca.
A
escalada da Parmalat no Brasil foi vertiginosa e essa política
talvez não tenha sido a melhor num setor complexo e cauteloso
em seus negócios, como é o leiteiro. Para ser hoje
a segunda maior compradora de leite do país, a Parmalat valeu-se
de dezenas de incorporações de laticínios,
causando espanto na época. Será que iria dar certo?
Depois de trinta anos, tivemos a resposta. A Parmalat construiu
uma grande marca, mas fracassou na gestão corporativa. A
marca é hoje o seu grande ativo.
Seus
diretores devem estar com mil idéias na cabeça, mas
a opinião nas rodas leiteiras é a de que a Parmalat
deve fazer o caminho inverso do que fez, vendendo o que comprou,
para administrar a crise. Os compradores podem ser cooperativas,
laticínios privados, grandes investidores, etc. Todos caminhos
são válidos, menos apagar a luz e ir embora, sem dar
a mínima principalmente para os produtores de leite.
Num
ponto somos inflexíveis. A Parmalat deve safar-se de seus
problemas com seu próprio dinheiro, e não às
custas de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento
Social e Econômico, como tem sido ventilado. Como está
dito no seu nome, o BNDES é uma instituição
de apoio ao progresso do Brasil e não pronto-socorro de empresas
estrangeiras em regime pré-falimentar.
A
filial brasileira pode sobreviver fácil, não só
pelo alto prestígio da marca, mas sobretudo pelo vulto das
suas operações. Ela é a maior das trinta subsidiárias
da Parmalat, respondendo por 20% de seu faturamento global. Uma
companhia desse perfil é cobiçada por muitos, ainda
mais diante do potencial do crescimento do mercado interno e das
exportações brasileiras de leite, justamente o motivo
que determinou sua vinda para cá.
Esqueçam
todas palavras acima se a Parmalat não honrar seus compromissos.
Pagar o que deve é fundamental para se manter à tona.
Se não conseguir, infelizmente será o fim de uma empresa
quemarcou época no leite e que inclusive foi pioneira no
Brasil do marketing esportivo do leite. Todos devem se lembrar da
marca Parmalat no carro do tri-campeão mundial de fórmula
1 Nelson Piquet!.
Jorge
Rubez - Presidente da Leite Brasil (janeiro/2004)
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