|
Uma
sábia decisão presidencial
O
Brasil é o sexto maior produtor de leite do mundo, mas no
consumo per capita é um dos últimos. Não é
novidade que um dos principais motivos desse descompasso é
a crítica situação econômica da maioria
da população. Por isso, merece amplos elogios a decisão
do presidente Lula de implantar novamente o programa de distribuição
gratuita do produto às famílias de baixa renda. No
tempo do presidente José Sarney, o programa beneficiava diariamente
7,6 milhões de crianças e respondia por cerca de 20%
do total de leite produzido no país.
O
programa tem muitas virtudes. Além de permitir que famílias
carentes tenham acesso garantido a um alimento de inegável
valor para sua saúde, objetivo para o qual foi criado, o
programa indiretamente fará com que uma boa parte da produção
nacional de leite tenha escoamento contínuo no ano todo,
beneficiando não apenas cooperativas e laticínios
privados, mas também produtores, quer sejam grandes, médios
ou pequenos.
Há
que se reconhecer ainda que o programa gerará benefícios
em cascata nos dez Estados do semi-árido nordestino, por
onde começará, ao injetar perto de R$ 400 milhões
por ano na economia das cidades da região. Como o leite deverá
ser adquirido nas empresas de laticínios locais, isso significa
mais empregos, mais movimento no comércio, maiores recursos
para as prefeituras, enfim, melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Para
rebater algumas críticas, devemos dizer que o programa nasceu
naturalmente dentro do governo Lula, sem ter havido nenhum lobby
dos produtores. Na nossa visão, a distribuição
de leite e outros alimentos, não é apenas um gesto
humanitário, mas uma política de saúde pública
pois, ao aumentar a saúde da população, se
reduz gastos com doenças e internações hospitalares.
Dentro desse enfoque, o leite é o alimento mais indicado
devido ao seu alto valor nutritivo.
Tanto
é assim, que inúmeros países, inclusive os
desenvolvidos, adotam o chamado “leite escolar”, específico
para ser distribuído no sistema educativo. Na Dinamarca existe
desde 1973; em Portugal desde 1971. O do México foi implantado
em 1930. Na China, são atendidas 200 milhões de crianças.
A própria FAO reconhece a importância estratégica
da pecuária leiteira, elegendo-a com a atividade que mais
gera riquezas e que mais combate a pobreza das nações.
Que
venha o programa e que seja uma resposta para as mães que
não se conformam que seus filhos não tenham os indispensáveis
500 ml diários de leite. Precisamos ficar muito atentos para
que o programa não se torne objeto de exploração
política, como aconteceu com o “ticket do Sarney”.
Em 2004, teremos eleições municipais e muitos candidatos
podem manipular o programa, que pretende distribuir 1 milhão
de litros de leite por dia até dezembro de 2004, ou seja,
perto de 3% da produção nacional.
Temos
apenas uma preocupação. Infelizmente ainda há
no país programas do gênero que insistem em ser abastecidos
com leite em pó importado. Os organizadores do programa federal
devem se precaver para que o mesmo absurdo não ocorra na
sua vigência. Se ocorrer, toda ação meritória
do programa será anulada, tantas são as distorções
que o leite importado provoca na pecuária leiteira e na economia
do país.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Dezembro/2003)
|