|
A
era dos sólidos totais
Se
nada ocorrer ao contrário, o Brasil pode estar próximo
de entrar na era do pagamento de leite por sólidos totais.
Os produtores devem ir se preparando para a novidade para que não
sejam pegos de surpresa. O pagamento por sólidos totais será
chave para o Brasil se tornar grande exportador de lácteos,
previsão que nos anima, pois fará com que os produtores
recebam melhores preços. Essa previsão não
é nossa, mas de especialistas das tendências mundiais
da pecuária leiteira.
O pagamento por sólidos totais é o caminho que seguiram
a Nova Zelândia e Austrália, para se consolidarem no
mercado mundial. A Argentina já começou a fazer esse
trabalho. Falando em outros países e apenas como curiosidade,
os EUA e Europa não seguem essa sistemática. Lá
ainda está o vigor o pagamento por volume de leite. Quanto
maior a quantidade, mais dinheiro na conta. Há uma explicação.
Os produtores abriram mão desse sistema porque não
dependem das exportações para serem melhores remunerados,
pois têm os subsídios como compensação.
Para o pagamento por sólidos totais ser implantado com sucesso
no Brasil, os produtores têm que tomar algumas medidas. São
em três áreas: genética, alimentação
e manejo. Na genética, usar animais direcionados para a produção
de sólidos totais e não mais para produção
de maior volume de leite, como tem sido a regra. Na alimentação,
usar mais volumosos do que rações concentradas. No
manejo, fazer tudo que é possível para que as vacas
tenham menor estresse.
Não é fácil mudar a rotina de uma fazenda leiteira,
mas no aspecto do pagamento por sólidos totais não
tem outro jeito. Temos que acompanhar as modernidades. Ainda pode
demorar um pouco, mas é bom ir-se de preparando, por enquanto
psicologicamente. Para que possamos enveredar com segurança
por esse caminho, vamos precisar aprofundar nossos conhecimentos
técnicos para que possamos fazer a coisa certa desde o começo.
Normalmente um leite tem 87,5% de água e 12,5% de sólidos,
na forma de proteínas, lactose, gordura, sais minerais e
outros componentes de menor presença. Daqui para frente,
são esses sólidos o alvo que temos a perseguir. Os
derivados finais lácteos, com exceção do leite
fluído e do leite de longa vida, precisam muito dos sólidos
totais, para renderem maiores quantidades de produtos acabados.
É o caso dos queijos, dos iogurtes, da manteiga, leite em
pó e outros.
Por exemplo, 100 litros de leite com 12,5% de sólidos totais,
renderão 10 kg de queijo. Se os mesmos 100 litros tiverem
10% de sólidos totais, o rendimento será de 8 kg de
queijo. O leite produzido no Brasil possui em torno de 12,5% de
sólidos totais, que precisa ser aumentado para sermos mais
competitivos no mercado externo e, nunca é demais repetir,
para agregar valor ao nosso leite. A causa é boa e não
existe melhor motivo do que esse para abraçá-la.
Se os produtores da Nova Zelândia conseguiram aumentar a quantidade
dos sólidos totais de seu leite, nós também
haveremos de conseguir. No passado, o leite daquele país
tinha a mesma quantidade de sólidos totais do nosso. Hoje
tem ao redor de 15%, ou seja, desde a produção da
matéria-prima os neozelandeses já começam a
ser eficientes. A primeira vista pode ser uma diferença pequena,
mas quando se fala em milhões de toneladas de produtos lácteos
por ano, situação muda de figura.
Atualmente a qualidade do leite no Brasil é regida pela CCS
(contagem de células somáticas) e pela UFC (unidade
formadora de colônias). A regra agora é ST (sólidos
totais). É um novo desafio a que a pecuária leiteira
terá que se submeter, pois assim exige o mercado, senhor
todo poderoso de nossas ações. Não adiantará
apenas um laticínio ou uma bacia leiteira, adotar o pagamento
por sólidos totais. O processo tem que ser irrestrito e nacional.
Não existe meia-revolução. Se existir, não
é revolução.
Jorge
Rubez - Presidente da Leite Brasil (fevereiro/2004)
|