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Vacas
não comem índices
Em
seu mundialmente famoso livro O homem que contava, Malba Tahan escreveu
que os números nem sempre são perfeitos e às
vezes estão falseados por erros. Na mosca. No começo
de julho a imprensa, reproduzindo informações de fontes
oficiais, noticiou que o preço do leite para o consumidor
disparou. Uma alta de 30%. Um aumento nesse nível assusta,
ainda mais num momento em que a economia do país entrava
em deflação.
Acontece
que a verdade é muito diferente do que foi anunciado pela
mídia. O preço do leite C ao produtor paulista de
fato aumentou de 30,9% em junho, mas o que não foi dito é
que esse aumento se refere ao total acumulado nos últimos
doze meses e não apenas a um único mês! Aí
o estrago já estava feito. Desmentir uma notícia errada
é tão impossível como tentar reunir um saco
de plumas espalhadas pelo vento.
Há
que explicar ainda que o aumento anual de 30,9% no preço,
que a primeira vista pode parecer algo exagerado, está dentro
dos índices normalmente usados para indexar os preços
da economia em geral. Nos últimos doze meses os principais
índices de inflação indicaram uma evolução
na faixa de 27 a 33,5%. Tivemos índices menores, com resultados
de 14%, 17%, 19%, 20%, 26%, conforme a instituição
de pesquisa e a metodologia adotada. Nesse ponto cabe-nos esclarecer
que a vaca não come índices, mas alimentos cujos preços,
esses sim, explodiram.
Podemos
começar citando a cotação da saca de milho,
que nos últimos doze meses subiu 33,4%, ou a ração
balanceada, cuja alta foi de 29,3%. Outros fatores de produção,
sem os quais não se produz comida para as vacas, também
foram lá para cima, caso do óleo diesel (55,1%) e
do adubo (38,8%). Sem falar em insumos de preços em dólar,
os quais sobem quando a moeda americana sobe, mas que continuam
no mesmo patamar quando a cotação despenca e o real
se valoriza, como acontece agora.
Outro
enfoque equivocado levado ao conhecimento do público dava
conta que o preço do leite aumentou porque a produção
caiu, mas ninguém teve o cuidado de explicar em seus detalhes
porque ela caiu. Esse é o âmago da questão.
Acharemos inúmeros motivos para explicar a redução,
mas o fundamental é que o produtor está muito desestimulado
com a sua profissão de uns anos para cá. Persiste
nela porque não é fácil fazer a reconversão
para outra atividade.
As
estatísticas estão aí para comprovar nossa
opinião. A produção brasileira de leite, que
sempre apresentou números ascendentes, no período
2001/2002 caiu 0,54%, passando de 20,5 bilhões de litros
para 20,4 bilhões. Uma queda pequena, de 100 milhões
de litros, mas o suficiente para mostrar que o setor não
está bem. O agronegócio como um todo está indo
de vento em popa; alguns produtos duplicaram a produção
e a produtividade. A pecuária leiteira estacionou.
Onde
está o problema? Basicamente na desorganização
geral da cadeia produtiva. Houve progressos na parte tecnológica,
da legislação, mas na parte econômica estamos
ainda na estaca zero. Alguém poderia citar um sequer setor
dos agronegócios submetido a alguma CPI? Pois bem, o leite
teve mais de cinco estados a organizar esse tipo de investigação,
que também não resolveram nada, pois os problemas
continuam.
O
Governo Federal está acenando com a montagem de uma Câmara
do Leite. Pode ser uma medida salutar, saneadora dos erros acumulados
nos últimos 50 anos no quesito formação de
preços. Se conseguir reunir numa mesma mesa de negociação
todos os elos da cadeia para uma divisão mais equânime
do bolo, um grande avanço terá sido dado. Os produtores
e consumidores podem deixar de ser os maiores prejudicados pela
falta de diálogo da cadeia produtiva.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Julho/2003)
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