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O
leite não merece esta palavra
As
agências reguladoras têm prestado excelentes serviços
ao país, embora o presidente Lula não pense exatamente
assim. Mas de vez em quando elas também pisam na bola, como
acaba de acontecer com a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária, a Anvisa, que tem a grande responsabilidade que
botar ordem num setor vital e complexo, como é o de remédios
e alimentos.
A
falha da Anvisa ocorreu na resolução RDC número
222 de 5 de agosto de 2002 (www.anvisa.gov.br/legis/resol/2002/222_02rdc.htm),
sobre o Regulamento Técnico para Promoção Comercial
de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância.
Concordamos com todo o texto da lei, exceto na parte que diz que
“O Ministério da Saúde adverte”.
O
grande problema do texto é a palavra adverte. Não
sabemos qual foi a intenção do legislador ao optar
por essa palavra, mas sem dúvida ele foi infeliz na sua decisão.
Normalmente o vocábulo é usado na publicidade e nas
embalagens de produtos nocivos à saúde, como os cigarros
e as bebidas alcoólicas e, por assim ser, a palavra ganhou
uma conotação negativa, inconcebível quando
se trata de leite.
No
caso do leite integral, a palavra adverte antecede uma das frases
que diz “O aleitamento materno evita infecções
e alergias e é recomendado até os dois anos de idade
ou mais”. Do jeito que está no texto pode gerar excesso
de interpretação por parte dos consumidores, induzindo-os
ao erro. Simplesmente a mãe pode concluir de forma apressada,
sob forte pressão psicológica, que se o aleitamento
materno evita infecções, por seu turno os alimentos
lácteos as provocam, o que é um absurdo.
Ao
persistir tal disparate, a imagem desses produtos pode ser prejudicada,
anulando os investimentos das empresas de laticínios em marketing,
pesquisa de opinião, na criação de embalagens
práticas, informativas, seguras. Quem paga o prejuízo
pela destruição de um produto no mercado?
Nossa
preocupação principal é o efeito negativo que
esta palavra provocará no consumo de leite, que já
é pequeno, aumentando a desnutrição infantil,
inibindo a produção rural e reduzindo o emprego no
campo. É triste verificar que, enquanto os países
desenvolvidos (EUA e UE) gastam fortunas para incentivar o consumo
de leite, o Brasil gasta recursos para reduzir o consumo.
O
Ministério da Saúde deve ser rigoroso ao máximo
para evitar que os consumidores sejam desrespeitados no seu direito
de saber o que estão comprando, mas também essa ação
não pode ultrapassar os limites do bom senso, por mais subjetiva
que ela seja. Ao não dar muita bola à semântica,
estudo das mudanças do significado das palavras no decorrer
do tempo, o Ministério da Saúde cometeu um grave deslize
e agora cabe à autarquia corrigir a falha, pois esse é
seu dever constitucional.
A
resolução RDC número 19, de 30/01/2003 (www.anvisa.gov.br/legis/resol/2003/rdc/19_03rdc.htm}
obriga as empresas a se adequarem ao regulamento num o prazo de
90 dias. Como está havendo desconforto no setor lácteo
e entre os produtores, revoltados, por seu produto ter recebido
uma conotação injusta, a Leite Brasil está
incentivando entidades do setor para atuarem junto a Anvisa para
que troque a palavra adverte por outra menos agressiva,
Esta
palavra poderia ser esclarece. Uma simples mudança resolve
tudo e não será por isso que os consumidores deixarão
de ficar menos informados. O certo era ter havido antes uma consulta
pública para discutir o assunto, mas como não houve
a Leite Brasil apresentou recentemente sua posição
para a Anvisa.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Março/2003)
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