Um
momento histórico do leite
O
Presidente Lula está sendo uma agradável surpresa,
tanto que fez por merecer o índice de aprovação
popular de 83%, caso inédito na história do país.
Também colocamo-nos ao lado desses brasileiros que estão
dando-lhe um voto de confiança. Afinal, entre outras virtudes,
ele teve a sabedoria de colocar pessoas certas nos lugares certos,
em especial os titulares de ministérios chaves para a estabilidade
e crescimento econômico da nação.
É
o caso específico do Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues,
cuja escolha mereceu aplausos unânimes da agricultura brasileira.
Raras vezes tivemos um nome tão identificado com as causas
do produtor rural como o dele. A Pasta sempre serviu como moeda
de troca política, mas desta vez a escolha recaiu numa melhores
cabeças que temos. O Ministro é um enciclopedista,
pois conhece todos segmentos da agricultura, da produção
à exportação.
O
agricultor Roberto Rodrigues já disse porque veio, pois acaba
de anunciar a criação de câmaras setoriais em
sua Pasta, certamente convicto de que elas são de extrema
importância numa área tão frágil em termos
de garantia de preços, como é o caso da agricultura.
Que o diga a pecuária leiteira: quem manda no preço
do leite hoje não é mais o mercado, mas as grandes
redes de supermercados.
Sem
sombra de dúvida, as câmaras setoriais são a
única forma da agropecuária mudar as regras do jogo
no que tange aos preços que recebe dos setores que estão
logo a sua jusante (indústrias). Somente o Governo entrando
na parada como árbitro para solucionar conflitos de interesse
tão intensos e insolúveis com os que existem nos agronegócios.
Esperamos que elas sejam fundamentalmente econômicas, do que
técnicas.
Outra
qualidade do Ministro Roberto Rodrigues que certamente gerará
efeitos positivos na pecuária leiteira é que suas
raízes estão no cooperativismo, no qual militou como
agricultor e líder autêntico, inclusive de atuação
mundial. As cooperativas, sustentáculo da pecuária
leiteira desde seu nascimento, estão perdendo sua força
porque nenhum outro Governo deu a elas o valor que merecem. Já
para outros segmentos, o Governo foi mais generoso, abrindo o cofre
sempre que solicitado
Com
o Presidente Luis Inácio Lula da Silva afirma que o cooperativismo
será uma das suas prioridades, e com o Ministro Roberto Rodrigues
sendo desde o início de sua carreira de homem público
um defensor férreo dessa modalidade de produção,
podemos concluir que pecuária leiteira está prestes
a entrar numa fase talvez nunca antes vivenciada em toda sua história.
Ainda não é hora de comemorar, mas quem sabe por a
champanhe para gelar.
A
missão principal das câmaras setoriais será
a de criar mecanismos que garantam uma eqüitativa distribuição
de renda entre todos elos da cadeia, sem o que não haverá
expansão da pecuária leiteira em bases mais sólidas.
Se as câmaras falharem, fica cada vez mais difícil
atingirmos o círculo virtuoso do leite que há tanto
tempo esperamos.
Não
temos porque duvidar que a pecuária leiteira não esteja
preparada para esse grande momento em termos tecnológicos.
Existem problemas na fase da produção, mas com o dinamismo,
típico da atividade, eles podem ser equacionados em curto
prazo, desde que todos os produtores recebam remuneração
mais justa e estável, independente da região ou estado
em que desenvolvam seu trabalho.
Nosso
ponto de vista seria diferente se as novas normas de produção
ainda estivessem por vir. Ao serem oficializadas em 2002, a pecuária
leiteira removeu o último obstáculo que lhe faltava
para entrar na modernidade. O processo ainda se iniciando, mas o
que importa saber é que o primeiro passo foi dado, embora
deva ser lembrado que muitas das suas exigências já
são cumpridas há tempos por milhares de produtores,
o que serve de reforço à nossa tese.
Há
que considerar ainda que as novas normas são condição
sine qua non para o Brasil se inserir de forma consagradora no mercado
mundial de lácteos. Antes delas só poderíamos
exportar para países que não têm legislação
específica sobre o assunto, caso da maioria das nações
da África e da Ásia. Com as novas normas, obtivemos
o direito de exportar para o mundo todo.
Não
é bravata afirmar que o Brasil tem chances reais de ser grande
plataforma exportadora de lácteos. Não apenas porque
produzimos leite a custo imbatível, trunfo decisivo num mercado
altamente competitivo, mas também porque as condições
naturais do país fazem com que a produção nacional
seja elástica, podendo ser aumentada de acordo com as necessidades.
Somos o sexto maior produtor mundial e podemos muito nossa posição
no ranking.
Mesmo
com todos os obstáculos que o leite do Brasil enfrenta, já
iniciamos exportações para certos nichos de mercado
com sucesso. É o caso do leite condensado, onde se juntaram
requisitos de monta para a realização do negócio:
quantidade e preço baixo das matérias-primas leite,
açúcar e folha- de- flandres (da lata). É apenas
questão de criatividade e agressividade comercial descobrirmos
outros nichos de mercado.
As
exportações competem essencialmente à iniciativa
privada, mas tem que haver também a participação
do governo para o necessário apoio político, que pesa
muito no ambiente nada diplomático dos negócios mundiais.
Nesse aspecto, patinamos. Enquanto nos EUA existem 15 mil funcionários
públicos abrindo caminhos para as empresas exportadoras,
no Brasil existem apenas 60, como afirmou o jornalista econômico
Luis Nassif num programa da Televisão Cultura.
Parece
que o governo Lula deu-se conta de nossa fragilidade nesse assunto,
tanto que o ministro das Relações Exteriores Celso
Amorim está empenhado em fazer com que as embaixadas brasileiras
assumam o mesmo papel comercial que o têm as embaixadas de
outros países. A tônica é a de que os embaixadores
se preocupem mais em “vender” o Brasil lá fora,
do que participar de festas e coquetéis de poucos resultados
práticos.
Se
de fato houver na atual administração vontade política
dirigida ao comércio exterior, os lácteos podem aspirar
um lugar ao sol na pauta dos bens exportáveis. Para isso,
é preciso mostrar as potencialidades do produto ao ministro
da área, Luis Fernando Furlan, que já adiantou que
sua meta é criar 400 mil novos empregos com o acréscimo
nas vendas externas. Falar em empregos, é com o leite mesmo.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Março/2003)
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