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A
novela sem fim dos transgênicos
O
custo Brasil é um dragão de muitas cabeças
e uma delas é a morosidade da justiça. Há mais
de três anos o Tribunal Federal de Recursos segura um processo
que tem tudo a ver com o futuro da agropecuária nacional:
a regulamentação dos organismos geneticamente modificados
(OGM), comumente chamados de transgênicos. Não me cabe
analisar aqui se, esses produtos, são bons ou ruins. Existem
pessoas mais categorizadas para isso.
Sem dúvida, o tema é polêmico, mas esperar tanto
tempo para uma decisão do Judiciário, complica ainda
mais a situação. Enquanto os principais países
agrícolas do mundo já têm uma legislação
sobre os OGM, o Brasil ainda não sabe se pode ou não
plantar, consumir, importar, enfim, tomar seu rumo no que se refere
a esses produtos. Sendo a indecisão uma forma de escravidão,
a agricultura brasileira virou refém dos senhores juízes.
Como
o Brasil está se firmando como poderoso player no mercado
mundial de produtos agrícolas, a inexistência de regras
sobre os transgênicos pode afetar essa posição,
perdendo mercados obtidos com muito esforço. Procurando tirar
proveito dessa situação, os norte- americanos, ardilosamente
já estão espalhando que 60% da soja brasileira é
transgênica, o que é uma profunda inverdade, como todo
mundo sabe.
Em
2002 o Brasil teve sérios problemas no abastecimento de milho.
Milhares de criadores de suínos e aves entraram em crise
financeira (muitos fecharam suas granjas) porque não conseguiram
suportar os preços que os grãos atingiram. Em janeiro,
um navio de 600 mil sacas de milho, que poderia aliviar sua falta
no mercado, estava retido em Santa Catarina porque a autorização
do desembarque virou uma briga na justiça. Quem paga os prejuízos?
Pois
bem, essas perturbações não teriam existido
se os magistrados já tivessem decidido sobre os produtos
transgênicos. Supondo que tenham sido favoráveis a
eles, o país poderia ter importado grãos transgênicos
de qualquer país que fosse e evitado o que aconteceu. Não
foi apenas a agropecuária que saiu perdendo, mas todo o país,
já que o setor é a locomotiva da economia brasileira.
Podemos
admitir como normal que um assunto dessa relevância demore
algum tempo para ser julgado pelas cortes. Mas é um absurdo
o processo simplesmente estar encalhado no TFR. Há exatos
10 meses ele não sai do lugar. Quando é para decidir
sobre interesses próprios, os magistrados são eficientíssimos.
Que falta que faz a criação de um organismo de controle
externo do Judiciário!
O
egrégio Tribunal Federal de Recursos não pode se omitir
mais de sua responsabilidade. É preciso que diga de uma vez
por todas, se o Brasil pode ou não cultivar transgênicos.
Como o assunto adquiriu forte viés ideológico, a demora
pode estar ligada ao fato de os juízes não quererem
sofrer desgaste junto à parcela da opinião pública
contrária aos OGM. Em outras palavras, estão empurrando
o problema com a barriga, quem sabe deixando a decisão para
seus sucessores. Não é isso que se espera dos magistrados
máximos da nação.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Fevereiro/2003)
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