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O
famoso projeto Fome Zero
Apesar
de já termos abordado em outros artigos os problemas gerados
pelos supermercados na cadeia leiteira, estamos voltando ao tema
porque surgiram fatos novos e importantes. Um deles é o Projeto
Fome Zero, volume de 118 páginas que, num de seus tópicos,
analisa a atuação dos supermercados.Vale a pena transcrever
na íntegra o que está na página 95.
“Uma
nova política para o setor de abastecimento exige também
uma nova atitude para com as redes de supermercados, no sentido
de evitar uma excessiva concentração no varejo e de
torná-los parceiros na política de segurança
alimentar. Algumas experiências mostram que a instalação
de grandes equipamentos de vendas acaba por destruir o pequeno varejo
e não apresenta resultados expressivos em termos de emprego
e de renda para os municípios. Evidências empíricas
sugerem inclusive que níveis mais elevados de concentração
não trazem ganhos de preços para o consumidor”.
O
Projeto Fome Zero, organizado pelo Instituto Cidadania em 2000,
não poderia ser mais claro e oportuno sobre os malefícios
que os supermercados estão causando. O Projeto tem ainda
a virtude de colocar pela primeira vez a questão no âmbito
do Poder Executivo, pois agora ele virou Programa do Presidente
Lula, completando denúncias do Poder Legislativo, nascidas
nas CPI do leite. Só falta agora o Poder Judiciário.
Apesar
de não tocar na parte que mais nos interessa, a manipulação
dos preços dos lácteos em geral, o Projeto aumenta
a gravidade dos fatos. Através dele ficamos sabendo que os
supermercados causam danos não apenas aos produtores de leite,
mas a toda sociedade brasileira, pois geram desemprego e falência
do pequeno comércio. Em resumo, o Projeto aponta o dedo para
os supermercados e pede nova política para o comércio
varejista.
Essa
política pode acontecer com a volta no Governo Lula do projeto
da Agência Nacional da Concorrência, arquivado pela
Casa Civil do Presidente FHC, conforme disse o novo Secretário
de Direito Econômico Daniel Goldberg, em recente entrevista
ao jornal Estadão. “Há muitos setores cartelizados
no Brasil e podemos esperar vários processos conta os cartéis”,
disse o advogado, mestre pela Universidade de Harvard.
Mirando
seu alvo para os setores dos postos de gasolina, cimento, aço
e remédios, o novo titular da SDE diz que vai concentrar
no combate aos cartéis, “porque são a prática
abusiva que mais prejudica o consumidor e dessa forma a Secretaria
se encaixa na prioridade social do governo Lula”. Os supermercados
não estão na lista, mas podem entrar porque há
motivos de sobra para isso.
É
inaceitável que o elo final dos agronegócios do leite,
ao qual caberia por uma questão de direito, as margens normais
da intermediação comercial, ganhe mais do que toda
cadeia. Oficialmente, os supermercados ficam com uma margem de 2%,
mas ela chega a 30%, conforme apuraram as CPI do leite, graças
às muitas artimanhas que essas empresas usam no relacionamento
não apenas com os laticínios, mas com todos seus fornecedores.
Seja
como for, como agora quem manda no preço do leite é
o “supermercado e não mais o mercado”, por ora
somos obrigados a arquivar nosso otimismo sobre a cabal recuperação
econômica da atividade leiteira. Talvez poderemos mudar de
idéia se a Agência Nacional da Concorrência realmente
sair do papel e mostrar para que veio.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Janeiro/2003)
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