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Os
supermercados passaram dos limites
Antigamente
quando um novo governo assumia o comando da nação,
o primeiro pedido dos produtores era o aumento do preço do
leite. Com a queda do tabelamento, 10 anos atrás, poder-se-ia
pensar que o problema dos produtores estava resolvido. Pelo contrário,
hoje a situação está muito mais difícil
do que antes.
Quando
o governo controlava os preços, pelo menos os produtores
estavam garantidos através de reajustes periódicos
e em suas margens, que eram mais justas do que as atuais. Eles tinham
ainda a perspectiva deQ que com o fim do tabelamento, que obrigatoriamente
ocorreria por ser uma fatalidade histórica, poderiam enfim
influir na formação dos preços do leite.
Uma vaca dá leite todo dia, mas o mercado não tem
essa mesma previsibilidade. O sonho dos produtores, de poder negociar
livremente os preços do leite, foi sendo adiado por fatos
fora do seu controle que passaram a interferir no seu negócio
de forma contundente, como a importação desenfreada,
globalização, o fenômeno dos “sem fábrica”,
leite estrangeiro nos programas sociais, etc.
Até
que recentemente, ou melhor, de dois anos para cá, um novo
complicador abateu-se na atividade. Jamais suporíamos que
um dia teríamos esse problema pela frente: as grandes redes
de supermercados. Isso já não é mais novidade
para ninguém, inclusive porque essas empresas foram as grandes
acusadas nas várias CPI do leite realizadas no país.
Não
progredimos nada para reduzir os danos dos supermercados no leite,
mas já sabemos a estratégia que usam para ganhar mais
dinheiro à custa dos produtores. Em países onde as
leis são implacáveis, os donos dos supermercados estariam
fritos. Cansamos de ver na televisão executivos americanos
nas barras dos tribunais porque cometeram crimes econômicos.
Um teve de pagar fiança de US$ 500 milhões para não
ser preso.
Onde
os supermercados querem chegar? Será que querem quebrar os
produtores, já que agora são donos do preço
do leite? Toda cadeia leiteira está perdendo, fábricas
de rações, centrais de sêmen, indústria
de equipamentos, etc. Quando o produtor entra em crise, todo mundo
também entra.
Os
produtores têm hoje muitos problemas, mas o dos supermercados
é o maior grave. Temos que insistir até à exaustão
nesse ponto e exigir regras comerciais mais justas para que o leite
seja gerador de riquezas e não de pobreza. Com as novas normas
de produção e o início das exportações
de lácteos, o leite está a um passo de uma nova era,
mas que jamais chegará se os supermercados continuarem agindo
como estão. Subverteram os sagrados princípios éticos
e passaram a ser fiéis seguidores do lema “os fins
justificam os meios”.
Um
novo governo vem aí, sob a égide do social. O país
todo se mostra mais sensível com as dificuldades da classe
de menor renda. Formam-se mutirões para levar alimentos para
regiões assoladas pela seca. Existe um clima de boa vontade
no ar. Enquanto isso, os supermercados egoisticamente só
vêem lucro pela frente, esquecendo-se que também são
responsáveis por um futuro melhor para o Brasil.
Os
supermercados passaram dos limites e sem dúvida, vamos levar
esse problema para o novo Governo.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Dezembro/2002)
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