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Os
novos donos do preço do leite
A situação do leite muda como as nuvens do céu
e, por isso, fazer previsões para o setor é arriscado,
ainda mais para 2003, quando o Brasil empossará um presidente
que é visto com ressalvas, pelo menos pelas pessoas que não
votaram nele. Outros fatores inquietantes são a explosão
do dólar, a forte remarcação dos preços
em geral, os frágeis fundamentos da economia, o desabastecimento
do milho, entre outros.
Como
o Brasil do presidente Lula tem mais problemas a serem resolvidos
do que soluções encaminhadas e que o leite não
está imune a essa conjuntura, nada indica que 2003 será
um mar de rosas. Como disse o ministro Sérgio Amaral, “o
Brasil não pode ser uma ilha de progresso, num momento em
que os americanos perderam nas bolsas US$ 7 trilhões, ou
seja, dez vezes o nosso PIB”. Quando a “águia”
fica doente, todo mundo também fica.
Poderíamos
ser mais otimistas se não persistissem na atividade uma série
de antigas perturbações. Existem também as
novas, como a alta dos preços dos insumos, que estão
fora do nosso controle e que causam distorção na renda
do produtor. Uma outra pedra caiu no sapato do produtor, esta de
ponta afiada: os supermercados.
Atualmente
é o nosso maior problema. O motivo é muito simples:
agora eles são os donos dos preços do leite, ditando-os
para os laticínios e, lógico, para os produtores.
Na busca de lucros cada vez maiores, hoje na casa dos 30% (será
que os bancos lucram tanto assim?), os supermercados entraram por
um caminho estranho à ética comercial.
A
tática consiste em criar jogadas para pressionar os laticínios
a lhes venderem o leite por um preço menor, o que acaba sempre
acontecendo, pois são senhores imperiais do varejo. O mico
acaba ficando com o produtor. Sinto muito dizer, mas hoje toda cadeia
leiteira está nas mãos dos supermercados. Sua política
é torniquete no progresso do setor e alimentadora da crise
social. Cada R$ 1milhão investido no leite, segura 200 pessoas
no campo!
Infelizmente,
as entidades de classe sozinhas não resolverão esse
problema. Nem as CPI do leite, com toda sua força institucional,
resolveram-no. Pelos danos que provocam, os supermercados são
piores do que o tabelamento, a Sunab ! Em 2002 chegaram a importar
lácteos da Argentina para vendê-los mais baratos do
que em Buenos Aires.
Pura
encenação para passar para mídia a imagem de
inimigos dos preços altos; na verdade praticaram o condenável
dumping. Logo eles, especuladores natos. Lembram-se anos atrás
de suas maquininhas de carimbar preços novos nas embalagens
todo dia ? Lembram-se do famoso fiscal do Sarney que “fechou”
um supermercado em Curitiba pelo aumento abusivo dos preços?
Bons
tempos em que as padarias eram estabelecimentos sagrados para os
consumidores do leite. Em São Paulo, suas 5 mil padarias
impediam qualquer tentativa de cartel no comércio varejista.
A concorrência era ganha pelo mais competente e não
pelos artifícios usados pelos supermercados, que movem entre
si uma guerra para ver quem vai comer quem.
Em
artigo anterior defendi a criação de uma agência
reguladora de preços para dar um basta nessa situação.
Somente com Governo entrando na parada, o apetite dos supermercados
poderá ser moderado. Continuamos firme nessa idéia,
pois não vejo outra saída.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Dezembro/2002)
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