O
significado da eleição de Lula
O
Brasil está de parabéns. A eleição livre
e direta de Lula é uma prova contundente de que o país
atingiu alto grau de civilidade. O histórico pleito, que
poderia descambar para o incontrolável diante das circunstâncias
objetivas para tal, transcorreu na mais absoluta normalidade, sendo
isso motivo de sobra para acreditarmos que definitivamente a democracia
brasileira está consolidada.
Essa
é a grande lição a tirarmos das urnas. Um show
de cidadania que engrandece a nação perante os olhos
do mundo. Até mesmo os contidos ingleses elogiam o que aconteceu.
“Estou fascinado pela maturidade política demonstrada
pelo Brasil na condução do seu processo eleitoral”,
declarou ao Estadão o professor Peter Flynn, da Universidade
de Glasgow.
Há
que considerar ainda que pairava no ar o “risco Lula”
e mesmo assim em nenhuma vez tentou-se desestabilizar sua candidatura.
Afinal, o líder das pesquisas era da esquerda, ideologia
nunca aceita pela sociedade brasileira. Além do mais, Lula
quebrou uma tradição de 500 anos do Brasil, pois pela
primeira vez o país passa a ser presidido por um político
vindo do movimento trabalhista, e não mais por um representante
das elites.
Outro
ponto relevante da questão é que Lula tornou-se presidente
com 52 milhões de votos. Ou seja, ele foi legitimado no cargo
pela vontade esmagadora dos brasileiros, simbolizando hoje o governo
da maioria, espinha dorsal da democracia. Qualquer tentativa de
dificultar sua administração por puro revanchismo
seria uma violência contra o próprio povo e por isso
deve ser repudiada por toda nação. Quando um povo
é contrariado, as coisas nunca terminam bem.
Lula
sabe que andará sob o fio da navalha. Por isso prudentemente
está falando num governo de união nacional. Esse é
o caminho, devido à complexidade política que foi
eleição e à frágil situação
econômica do país. A Fiesp, o PNBE, e demais forças
representativas do empresariado nacional já o apóiam,
o que é um bom sinal. Se souber segurar seus radicais (e
que a oposição segure os seus), Lula poderá
surpreender e dar curso à normalidade institucional do Brasil.
Se
Lula vai ou não dar certo, esse é outro problema.
Mas devemos dar-lhe um crédito de confiança. O presidente
é hoje um senhor de 60 anos, tendo atingido uma idade que
não combina com atos de insensatez. Hoje ele veste a faixa
presidencial e não mais o macacão de metalúrgico
líder de greves. Como Lula é a esperança de
seus milhões de eleitores (que votaram nele e não
no PT), por certo não quererá carregar o estigma de
um Presidente que frustrou a confiança que o povo lhe depositou.
Considerando
que a bandeira da candidatura Lula foi o social, nesse aspecto a
agropecuária poder ser a maior beneficiada. Seu projeto nessa
área é a Fome Zero, a ser implementado no primeiro
ano do seu governo, e que pretender alimentar 10 milhões
de pessoas. Fome só se mata com a distribuição
farta de comida básica: arroz, feijão, carne e leite.
Será que desta vez vai?
No
caso específico do leite, o Ministério da Saúde
recomenda um consumo médio diário de 540 ml entre
crianças, jovens e adultos. Um consumo dessa ordem pelas
10 milhões de pessoas do projeto Fome Zero significa uma
demanda anual de 2 bilhões de litros de leite. Ou seja, a
produção nacional terá que crescer 10% para
atender as necessidades desse projeto.
Em
1960 Juscelino Kubitschek passou para Jânio Quadros um novo
país. O Brasil estava pronto para ingressar num período
de progresso social e econômico. Um gesto impensado de uma
pessoa despreparada para o cargo deu no que deu e foram quatro décadas
perdidas e de terríveis problemas. O Brasil poderia ser hoje
uma nação modelo. Talvez um Canadá, uma Alemanha.
Lula
é o único político de toda história
brasileira que sofreu três derrotas para o cargo antes de
ser eleito Presidente. Que ele tenha essa mesma persistência
no ingente desafio de completar a construção do Brasil.
A primeira parte FHC já fez.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Outubro/2002)
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