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Que
tal a Agencia Reguladora do Leite ?
A
bela frase do dramaturgo brasileiro Vianinha (para dominar uma tragédia,
somente olhando na cara dela) cai como uma luva na situação
do produtor de leite. Qual é a sua tragédia? Sem dúvida,
o “preço surpresa”: o produtor, a não
ser o cooperativado, não tem nenhuma participação
na formação do preço do leite!
Essa situação se configura na coisa mais nefasta que
pode existir na atividade empresarial: a transferência de
renda de um setor para outro. É mais ou menos o que ocorre
quando as multinacionais remetem para suas matrizes os lucros que
obtiveram aqui. Assim se explica a existência de pobres e
ricos.
É
óbvio que quem está ganhando não tem o mínimo
interesse em mudar as regras do jogo. O ideal seria termos critérios
justos para toda cadeia láctea, iguais aos que existem em
setores mais civilizados. Mas é pura perda de tempo insistir
nesse ponto, pois laticínios e supermercados não estão
nem aí para essas modernidades.
Sem outra escapatória, resta-nos tentar algo novo. No caso
seria a criação de uma Agência Reguladora do
Leite. Essas agências estão na moda e são um
sucesso. O Governo criou várias, justamente para evitar que
numa situação de desequilíbrio de forças
no mercado, um elo mais fraco seja prejudicado por outro mais forte.
Estão aí prestando bons serviços à nação
a Agência Nacional do Petróleo, das Telecomunicações,
da Energia Elétrica, da Saúde. No mês passado
o Paraná propôs a criação de uma agência
reguladora das rodovias, para disciplinar os excessos das concessionárias,
que estão transtornando o frete agrícola devido às
altas tarifas dos pedágios.
E o leite, merece o mesmo tratamento? Sem dúvida. Além
da necessidade de mudar o injusto sistema de pagamento vigente,
a atividade envolve cerca de 3,5 milhões de pessoas (igual
à população do Uruguai), entre produtores,
empregados e famílias. Sem falar nos R$ 15 bilhões
que a cadeia injeta na economia do país.
Até mesmo os EUA possuem uma espécie de agência
reguladora do leite, lá chamada de Federal Milk Marketing
Orders. O organismo fixa a remuneração dos fazendeiros
por regiões, garante preços mínimos, sustenta
programas de estocagem e crédito, etc. Justamente o que falta
no Brasil.
A agência que imaginamos estaria na órbita do Ministério
da Agricultura, a exemplo dos EUA, e seria constituída de
entidades dos produtores, laticínios, distribuidores e supermercados.
É fundamental que seja um órgão com poder de
fato para estabelecer penas severas para as partes que não
cumprirem suas decisões, caso contrário morrerá
no nascedouro.
Está aí uma idéia para ser discutida, amadurecida
e até substituída por outra melhor. Considerando que
a unanimidade é burra, as críticas serão muito
bem-vindas. Há 50 anos estamos culpando os outros pela nossa
tragédia. Temos que olhar na cara dela para resolvê-la.
A indecisão é uma forma de escravidão.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Junho/2002)
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