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A radiografia da crise do leite

Muitas luas se passarão sob o céu do Brasil e ainda continuaremos a ler nos jornais notícias do aumento do preço do leite na entressafra, algumas com certo estardalhaço. Normal. Entressafra é tempo de seca, geada, ventos fortes, que prejudicam a produção de alimentos das vacas. Logicamente, o volume de leite diminui, o preço sobe e aí todo mundo grita.

Tudo bem existem bacias leiteiras mais tecnificadas, a variação da produção na entressafra passou a ser menor, mas mesmo assim, a influência do fenômeno inverno/verão no setor não pode ser de todo evitada. É o ciclo da natureza, que existe até nos oceanos. Cardumes de peixes somem e aparecem novamente na mudança das estações.

Os altos e baixos da produção leiteira, comum até nos países desenvolvidos, a exemplo da Flórida, EUA, deve-se também a uma parte de produtores que continua a ordenhar suas vacas à moda antiga. Ainda não incorporaram tecnologias modernas disponíveis. Para esses produtores, se não chove, não tem capim; não tendo capim, não tem leite. Ponto final!

Mas a entressafra não é a única culpada dos aumentos do preço do leite no período. A outra é o completo caos que existe na formação de preços do produto, onde a regra é não ter regra. Um aumento de 5% no preço do leite seria razoável devido ao reajuste da energia elétrica, petróleo, salário mínimo, etc. Mas como explicar um aumento de até 50% para os consumidores, como se verifica em algumas regiões, senão por esse estado caótico ?

Quando notícias desses aumentos chegam a mídia, a população menos informada pensam que é o produtor que está se beneficiando Ledo engano. Na verdade, apenas uma ínfima parte do aumento lhe é repassada, ficando a parte do leão com outros elos da cadeia. Além do mais, a margem do produtor está cada vez menor, sendo hoje muito abaixo do que era anos atrás.

Hoje ele trabalha para pagar as contas e nada mais. É um sobrevivente na atividade, não mais um empresário rural, não tendo condições de investir em suas fazendas para que possa ser um profissional mais eficiente.

O produtor convive com essa anarquia há exatamente onze anos, desde que o governo acabou com o tabelamento dos preços do leite. Nada contra. O tabelamento deveria realmente ser banido, mas ao mesmo tempo o Governo deveria ter criado mecanismos reguladores dos preços para evitar o que está acontecendo. O Governo errou ao crer que o livre mercado poria as coisas em ordem. Pelo contrário, produtores e consumidores ficaram a Deus dará.

Logicamente, quem passou a tirar vantagens desse descontrole foram os segmentos mais fortes da cadeia leiteira. Em primeiro lugar, as multinacionais, que ficaram mais forte ainda depois que incorporaram dezenas de laticínios. Incorporaram inclusive grandes centrais cooperativas. Antes eram oito, hoje restam duas. Se os produtores podiam antes contar com elas, por pagar-lhes preços mais justos, hoje não contam mais.

Outros beneficiários são as redes de supermercados, que ultimamente passaram a adotar estratégias anti-éticas em relação aos seus fornecedores de lácteos. Valendo-se de sua supremacia no comércio varejista, essas empresas exigem dos laticínios o pagamento de estranhos “pedágios”. Adivinha quem acaba pagando eles? Lógico, os produtores. Não é à-toa que os supermercados estão na mira das CPI que estão em andamentos em vários estados.

No rol dos beneficiários incluem-se ainda os “sem fábrica”, como são chamados empresários que vivem a custa do leite em pó estrangeiro. São tão hábeis, que conseguem colocá-lo até nos programas sociais, como ocorre na Prefeitura de São Paulo. A maior felicidade dos “sem fábrica” são manchetes de aumentos de preços, pois assim têm um argumento de ouro para influenciar o governo e conseguir a redução das alíquotas do leite em pó importado. Leite caro puxa a inflação e isso para o ministro Pedro Malan é palavrão.

Muita gente acha que o produtor é um chorão. Mas é mesmo! Se não fosse estaria tudo errado, tantas são os percalços que sofre. As entidades fazem o possível e já conseguiram muitas vitórias, mas quanto a organizar a cadeia ninguém quer conversa. Laticínios, supermercados, “sem fábrica”, como estão com a vida tranqüila, recusam-se a um novo modus vivendi mais justo para todos.

Esgotadas todas chances de diálogo, a única saída que nos resta é sugerir ao Governo a criação de uma espécie de agência reguladora do leite, nos moldes que criou após a privatização das empresas publicas. Estão aí Agência Nacional do Petróleo, Agência Nacional da Saúde, Agência Nacional de Telecomunicações, prestando bons serviços em setores críticos sob o ponto de vista de concentração de poder, tal como ocorre no leite.

Essa agência, presidida por um representante do Poder Público, seria formada pelas entidades oficiais de todos elos da cadeia do leite, inclusive dos consumidores, cabendo a ela dirimir as pendências e evitar que os interesses de um elo se sobreponha ao de outros. Suas decisões seriam soberanas e os elos que não as acatarem estariam sujeitos a sanções administrativas e, se for o caso, até penais

Será que a pecuária leiteira do Brasil está a merecer tal magnitude de idéia ? Basta apenas um motivo. É atividade que mais gera empregos no país. Nenhuma outra a supera. São 5 milhões de pessoas, empregados das fazendas e suas famílias, gente ordeira e trabalhadora vivendo na paz dos campos, sem gerar nenhum problema para a nação, notadamente social.

Uma vez resolvido seus atuais problemas, a pecuária leiteira, pelo potencial que tem, poderia ir mais longe ainda, gerando mais empregos, mais tributos, mais divisas para o país, na forma de exportações. O Brasil todo sofre hoje nas cidades as piores conseqüências possíveis do êxodo rural por falta de uma política agrícola, de visão de futuro dos antigos governantes. Esperamos que o próximo Presidente da República não incida no mesmo erro.

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Abril/2002)