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O
leite e a crise na Argentina!
Existe
o risco da crise da Argentina acabar sobrando para o produtor brasileiro
de leite. É que o Governo estuda a possibilidade de zerar
os impostos de importação de produtos do país
vizinho para ajudá-lo a sair do sufoco. A intenção
é das melhores. Afinal das contas, somos parceiros principais
do Mercosul e quanto mais poderoso for o bloco, melhor para todo
continente latino.
Nossa
maior preocupação é que dentro do próprio
Governo não existe consenso sobre a inclusão ou não
dos lácteos na lista de concessões. Se prevalecer
a corrente favorável à eliminação das
barreiras comerciais, pode ser que em breve nosso mercado seja invadido
pelos lácteos vizinhos. Prejuízo certo para nós.
Devemos
torcer para que a Argentina supere seus problemas, mas não
à custa do nosso produtor. Era o que faltava ! Ele não
está em condições de ajudar ninguém.
Pelo contrário, ser ajudado, principalmente agora, quando
está “recuando e sem munição”,
como se lamentava o ex-presidente João Goulart nos seus tempos
de exílio na Europa.
Já
estamos nos movimentando para evitar que mais um acontecimento surrealista
caia sobre nós. Como chefe de estado, o Presidente Fernando
Henrique Cardoso tem o dever de prestar socorro à Argentina,
desde que seja criterioso em sua diplomacia, ou seja, franqueando
a importação apenas de produtos que não conturbem
a já conturbada vida nacional. Tudo, menos produtos agrícolas,
principalmente o leite.
O
presidente FHC está muito bem informado sobre a grave situação
atual da pecuária leiteira. Lideranças acabam de entregar-lhe
carta de amigo seu pessoal, alertando-o sobre o que ocorre no setor:
manipulação do mercado pelo cartel, queda violenta
dos preços ao produtor, super poderes nas mãos dos
supermercados. Se o Presidente errar, não será por
desinformação.
Quem
tem que ajudar a Argentina são os próprios argentinos,
fazendo o que deve ser feito: erradicar o déficit fiscal,
fechar falidos bancos estatais, cortar despesas geradas pela política
populista dos governadores provinciais. Porém, o mais importante
já fizeram, acabar com a idiota paridade da moeda local com
o dólar, causa mortis do país.
Não
será tarefa fácil para a Argentina cumprir essas metas
por um único motivo: falta um grande líder que conduza
a nação a dias mais tranqüilos. Três presidentes
nomeados às pressas pularam fora do barco. O atual, Duhalde,
não vê também a hora de ir embora. Quer dizer,
juntaram-se problemas econômicos e políticos, fato
que não sucedeu-se no Brasil.
O
presidente FHC falhou em muitos pontos, mas ninguém lhe tira
o mérito de ter dado tranqüilidade para a nação
e estabilidade para a moeda. Em vez de buscar a popularidade, ele
preferiu pensar no futuro do Brasil. Seu nome é respeitado
no Primeiro Mundo e mais seria aqui se não tivesse se descuidado
em alguns setores, como o da agricultura.
Contudo,
ele pode fechar seu mandato com chave de ouro, pelo menos para os
produtores de leite: basta acabar com os absurdos que acontecem
no setor, de seu pleno conhecimento, e evitar que lácteos
platinos sejam incluídos na relação dos produtos
com alíquotas rebaixadas de importação. Se
isso não acontecer a pecuária leiteira vai entrar
no mesmo roldão da Argentina.
Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Fevereiro/2002)
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