A
lição que 2001 nos deixou
No início de 2001 a pecuária leiteira do Brasil
comemorou uma vitória histórica: a imposição
de direitos antidumping nos produtos lácteos importados.
A expectativa era a de que este mecanismo permitiria haver recuperação
de renda do produtor pelo impacto que teria na redução
das importações.
Daí
para frente só amargamos decepção. Transcorrido
um ano, vemos que nem tudo funcionou como esperávamos e a
situação piorou ainda mais. As importações
caíram perto de 50%, mas bastou algumas indústrias
suspenderem as compras de leite numa importante bacia leiteira para
mostrar a fragilidade da cadeia e forçar a queda vertiginosa
do preços em plena entressafra.
Todos
perderam, menos a poderosa rede varejista, que se aproveitou da
situação para aumentar ainda mais seus lucros, prejudicando
o produtor, o sistema cooperativista e algumas indústrias.
O surgimento das CPI nos principais estados produtores de leite
foi decorrente dos protestos e do descontentamento reinante no setor.
Infelizmente
as CPI desviaram-se dos seus objetivos. Na tentativa de encontrar
os responsáveis pela queda dos preços do leite, deixou-se
levar pelo processo eleitoral que já está em curso
no país. Um exemplo foi o posicionamento de políticos
contra o Programa de Qualidade do Leite, com a desculpa de que ele
provocaria a exclusão dos pequenos produtores da atividade.
As
CPI tiveram seus méritos e decorreram do trabalho sério
de um grupo de deputados comprometidos com as grandes causas do
país. Lamentavelmente outro grupo deixou-se levar pela demagogia.
Contudo, mesmo diante desses acidentes de percurso, as CPI produziram
bons frutos.
Uma
das grandes decisões foi a criação de uma CPI
Nacional que será proposta pelo Deputado Moacir Miqueletto,
que terá o objetivo de reiniciar o processo de discussão
com base nas experiências dos fóruns regionais. Já
existem dois assuntos em pauta: a formação de cartel
por algumas industrias de laticínios e o excesso de exigências
por parte dos supermercados em relação a seus fornecedores.
Dentro
dessa mesma linha de trabalho das CPI, sugerimos a instituição
de um grande fórum nacional de discussão dos problemas
de toda cadeia leiteira que, para ter maior respaldo, seria coordenado
por um órgão do governo federal ou pela própria
Câmara dos Deputados.
Outros
avanços podem ser creditados à atuação
das CPIs. No Estado de Goiás estão em andamento projetos
de fortalecimento do sistema cooperativista, através da construção
em parceria de unidades industrias de fabricação de
derivados lácteos. Só assim os produtores não
ficarão a mercê das flutuações nos preços
do leite.
Todo
este processo serviu para mostrar que a pecuária leiteira
ainda continua em fase de aprendizado. Apesar de seu gigantismo,
não teve a devida competência para sensibilizar os
formadores de opinião sobre a sua importância social.
Apenas um exemplo é suficiente: em geração
de empregos, o setor leiteiro perde apenas para o da construção
civil.
O
ano 2001 deixou uma lição: a desorganização
dos produtores. Os motivos são vários, dimensão
do país, diferentes interesses regionais, muitos vendedores
e poucos compradores, crise do cooperativismo, mas nenhum deles
pode continuar sendo o motivo de nossa desunião.
Pelo
contrário, eles mostram como é fundamental a coesão
da classe em torno de suas entidades econômicas e políticas
para o seu fortalecimento. Se aconteceu em outros países
de avançada pecuária leiteira, aqui também
pode acontecer.
Jorge
Rubez – Presidente da Leite Brasil
Dezembro/2001 |