As
preocupações do Governador
Num
recente encontro que tivemos com o governador Geraldo Alckmin, notamos
sua grande preocupação com as sucessivas liquidações
de rebanhos paulistas de gado leiteiro. Fizemos o governador perceber
que não há necessidade de ficar apreensivo a respeito
desse assunto, pelo menos sob o ponto de vista econômico.
Os motivos são vários.
Em
primeiro lugar, não existe nenhuma onda crescente de liquidações,
mas sim algumas liquidações que provocam mais impacto
na mídia por serem de criadores de renome nacional. É
puro efeito psicológico. São liquidações
isoladas, destituídas de qualquer força que signifique
uma tendência real do mercado. Além do mais, os criadores
que estão liquidando seus plantéis fazem isso porque
o leite não é a sua atividade principal.
Em
segundo, trata-se de uma questão de custo de oportunidade.
O hectare em Rondônia ou no Centro-Oeste custa muito menos
que em São Paulo, onde uma fazenda arrendada para plantar
cana-de-açúcar rende mais que produzir leite. Sem
falar que o custo do leite em São Paulo é também
maior.
Em
terceiro, até tempos atrás, a maior fonte de aquisição
de animais de alto padrão era o Paraná, Argentina
e o Uruguai. Agora os criadores de outros estados estão preferindo
comprar no Estado de São Paulo, uma ilha de tecnologia, berço
do leite B e onde se encontra a mais avançada genética
em produção leiteira.
Em
quarto, é preciso não confundir liquidação
com abate de animais. Essa é uma distinção
elementar, mas é bom que se diga isso porque as notícias
de liquidação atingem também um público
leigo, que precisa saber da verdade dos fatos para não tirar
conclusões equivocadas, achando que as nossas vacas leiteiras
estão sendo exterminadas.
Em
quinto, as liquidações são altamente benéficas,
pois possibilitam o acesso de genética de qualidade a um
número maior de criadores. Elas são mais benéficas
ainda, já que a maioria das vacas está indo para regiões
ainda muito carentes de animais de pedigree. Ou seja, as liquidações
são um fator de progresso tecnológico da pecuária
leiteira de todo Brasil.
Por
último, se as liquidações estivessem realmente
arrasando a pecuária leiteira nacional, logicamente a produção
leiteira estaria caindo. O que se vê é justamente o
contrário. O Brasil vem apresentando nos últimos anos
uma curva ascendente nesse aspecto. Neste ano, por exemplo, devemos
crescer 5%, chegando perto de 21 bilhões de litros.
Comportamento
semelhante pode ser observado no Estado de São Paulo. Segundo
estatísticas do IEA/CATI, órgãos da Secretaria
da Agricultura paulista, a produção de leite B e C
no período 1999/2000 cresceu 3,2%. Cabe então perguntar:
o que significa três ou quatro liquidações num
universo de 57 mil produtores paulistas de leite?
Mas
num ponto o governador Alckmin tem razão. É na questão
social. Ninguém pode negar que as liquidações
estão provocando desemprego no campo, pois os funcionários
das fazendas que fecham não vão juntos com as vacas
para outros estados. Eles ficam em São Paulo mesmo, com poucas
chances de recolocação no mercado de trabalho de sua
especialidade, gerando toda sorte de desajustes.
Para
reverter esse quadro somente políticas públicas voltadas
para a valorização do campo, coisa que existe na França,
país mais protecionista do mundo da agricultura, desde Napoleão
Bonaparte. Mas como o agricultor brasileiro é um eterno otimista,
ele sempre acha que tudo vai melhorar um dia.
Precisamos
de inovações para resolver os problemas sociais. Estamos
levantando a bandeira do leite diferenciado para o Estado de São
Paulo, colocando em discussão um projeto de certificação
que vai desde a matéria prima até os produtos derivados
do leite.
Jorge
Rubez – Presidente da Leite Brasil
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