Tem produtor que está encarando como fato negativo a compra
parcial, repito parcial, de nossas cooperativas pelas multinacionais.
Tudo bem, é parte de nosso patrimônio que vai embora,
mas se a gente enxergar a venda por outro prisma, há coisas
certas que se escrevem por linhas tortas.
O grande mérito da venda é que ela permitiu o saneamento
financeiro das cooperativas, as quais não teriam onde buscar
dinheiro vivo em melhores condições da que foi adotada.
Rolar a dívida no mercado financeiro seria se afundar mais
ainda.
Por outro lado, a venda poderia ser evitada, se as cooperativas
tivessem sido socorridas com a mesma boa vontade com que o Governo
socorreu, por exemplo, os bancos, beneficiados com o famoso Proer.
Já o Recoop, uma linha de crédito para cooperativas
em dificuldades, foi uma mera promessa.
Agora com dinheiro vivo na mão, os dirigentes das cooperativas
têm uma oportunidade de ouro para colocar a casa novamente
em ordem. Eles precisam agir com firmeza e fazer exatamente o que
fazem aqueles executivos que os norte-americanos chamam de “salvadores
de empresas em ruínas”.
O importante agora é pagar o que deve ser pago, melhorar
o que deve ser melhorado, demitir quem deve ser demitido, doa a
quem doer. Uma máxima da moderna administração
diz que dói menos cortar quem deve, do que não cortar
quem deve ser cortado. Ou seja, manter parasitas na empresa.
Se não agirem dessa forma, os dirigentes fatalmente serão
no futuro administradores de massa falida, deixando de montar o
cavalo arreado que passou à sua frente. Será mais
uma cooperativa que será obrigada a fechar suas atividades
deixando milhares de produtores na rua da amargura.
A expressão é essa mesmo, rua da amargura, considerando
o grande peso das cooperativas na formação dos preços
do leite no mercado. Basta saber que hoje o preço das cooperativas
para seus produtores está em torno de R$ 0,40 o litro, contra
R$ 0,30 dos laticínios concorrentes.
Por isso, os mais interessados na sobrevivência das cooperativas
devem ser os próprios produtores. O sistema tem tudo para
sobreviver, desde que não se cometam os mesmos erros do passado.
Se todos enxergarem isso, não têm porque ficarem pessimistas
com a situação atual.
Está em nossas mãos um novo modelo de cooperativismo
leiteiro. Caso fracassemos nessa missão, resta-nos esperar
pelo caos. Teremos jogado pela janela meio século de trabalho
e esperança em dias melhores. Será a maldição
de Pinochet, aquela que destruiu as cooperativas de laticínios
do Chile, caindo sobre nós.
Jorge Rubez
– Presidente da Leite Brasil